17 de março de 2026
OPINIÃO

Salmo 21

Por Charles Borg | especial para a Folha da Região
| Tempo de leitura: 2 min

Só nascendo de novo! Assim reage a maioria das pessoas diante de perversão humana! Regenerado, nascendo de novo figurativamente, o ser humano reúne formidável energia para dar à história, e consequentemente, à vida dos cidadãos, seus contemporâneos, um direcionamento diferente, mais digno, mais nobre, mais decente.

O Livro Sagrado oferece leitura iluminadora a explicar o descompasso e, ao mesmo tempo, indica o caminho para restabelecer a ordem primitiva. O ponto de partida reside na intrínseca e indelével dignidade do ser humano. O Livro Sagrado o define como imagem e semelhança divina. Houve, no entanto, um momento na história quando este ser humano, nobre e distinto, precisou fazer uma escolha: reconhecer a soberania de um ser superior ou tornar-se ele próprio dono absoluto de seu destino.

Desconsiderou Deus e imaginou-se, por conta própria, ser capaz de definir o que vem a ser bom e o que vem a ser mal. Escolheu ser livre de forma equivocada. Figurativamente, o ser humano descobriu que a ambicionada hegemonia o deixava nu, vulnerável e volúvel! E assim continua acontecendo. Toda vez que o ser humano se arroga a competência de decidir por conta própria o que é certo e o que é errado, a desordem se multiplica, a prepotência se instala, a injustiça se alastra, o sofrimento de inocentes se propaga.

O Livro Sagrado apresenta o caminho da regeneração, o remédio para o ser humano recuperar a original dignidade. Para Deus nenhum ser humano é irrecuperável! Se o ser humano, por conta da sua arrogância, está por detrás de tantos desmandos, o caminho de volta passa necessariamente pela participação efetiva do ser humano.

Formidável sabedoria divina! Ao incarnar-se, o Filho de Deus, Jesus Cristo, homem igual a todos os outros, faz de sua existência um itinerário inverso. No lugar da arrogância, o contraponto da humildade. Contra a ambição do domínio, o serviço. Contra a pretensa onisciência, a livre e consciente aceitação dos valores divinos. Urge recordar, Jesus não ficou livre da tentação original de tomar nas próprias mãos o destino de sua vida.

Basta recordar, no momento mais dramático da sua história, pregado na cruz, sofre a provocação aguda – desce da cruz e acreditamos em você, toma o destino de sua vida em suas mãos, larga Deus para lá, salva-se a si mesmo! A resposta de Jesus a essa diabólica insinuação foi a oração do salmo 21 que retrata a vitória do humilde servo que em Deus coloca toda sua confiança! Salva-se a si mesmo, a diabólica insinuação, a infeliz mentalidade que corrompe e corrói!

Arrogância e presunção desfiguram o ser humano. Escolhas têm consequências. Jesus Cristo é a prova de que Deus nunca desiste de acreditar no ser humano. Sempre é possível recomeçar! A humilde e livre obediência à vontade do Pai Eterno, exemplificados pelo Cristo Jesus, indicam o caminho da regeneração, do nascer de novo, de reescrever a história.

Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba