17 de março de 2026
OPINIÃO

Menos telas, menos remédios, mais vida

Por Ayne Salviano | especial para a Folha da Região
| Tempo de leitura: 3 min

Quando fiz 59 anos, dei a mim mesma de presente uma matrícula na academia. A ideia surgiu por incentivo da minha filha, adepta do universo fitness, mas também por necessidade. A pós-menopausa trouxe dores pelo corpo, e o exercício físico tem sido a maneira de me livrar delas sem recorrer a remédios. Há quase um ano venho me esforçando para comparecer ao local pelo menos três vezes por semana. Confesso que o novo ambiente tem se revelado um interessante experimento social sob o olhar de uma jornalista semioticista.

Vejo jovens exibirem corpos moldados pelo exercício. A maioria parece saudável. No entanto, enquanto os músculos se constroem, percebe-se, pelas conversas, que muitas ideias parecem distorcidas. Não se trata de julgar comportamentos. Sou pragmática, meu ponto de referência é a lógica ou a ausência dela.

Assim, nas conversas, observo que muitos jovens que cultuam o corpo, especialmente os da Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012), enfrentam sofrimentos mentais. Há diagnósticos frequentes de ansiedade, depressão e transtorno de déficit de atenção, entre outros. Muitos utilizam medicamentos como ritalina e venvanse, apenas para citar alguns dos mais conhecidos.

A culpa não é deles, e tampouco há aqui qualquer questionamento sobre diagnósticos médicos. O que se evidencia é que eles vivem os efeitos de uma vida inteira conectada à internet e às redes sociais. Os smartphones tornaram-se praticamente uma extensão de suas mãos. É a geração ansiosa estudada pelo psicólogo Jonathan Haidt, autor do best-seller “A geração ansiosa”: como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais. A obra é leitura essencial para quem deseja compreender — e não apenas criticar — a Geração Z.

Por terem crescido conectados, muitos desses jovens tiveram poucas experiências fora das telas. Hoje parecem viver em constante aceleração. Seus cérebros foram moldados pelo hiperestímulo: o movimento repetitivo de rolar a tela tornou-se quase um símbolo dessa dinâmica. Há informação demais disponível e, paradoxalmente, nada consegue prender a atenção por muito tempo.

Além disso, o padrão de referência de suas vidas passa a ser o que aparece no feed. O problema é que o feed não representa a realidade: ele é cuidadosamente construído para encantar e engajar. Ao comparar suas vidas com essas imagens, muitos jovens se frustram. Suas rotinas nunca parecem tão interessantes quanto as fotos de lugares incríveis, roupas perfeitas, comidas sofisticadas e aventuras extraordinárias.

Nesse universo digital surge também a necessidade de validação social. Muitos jovens dependem da aprovação externa para se sentirem felizes, medida em curtidas e comentários. Assim se estabelece um pacto silencioso entre conhecidos: curtir tudo o que o outro publica. É o “dedinho nervoso”: curtidas automáticas e comentários com emojis feitos apenas para garantir reciprocidade. Nada é realmente espontâneo — e eles sabem disso —, mas o ciclo da dependência emocional continua.
Ansiosos e muitas vezes depressivos, muitos desses jovens lutam nas academias para melhorar o shape, acreditando que, quanto mais musculosos forem, mais fortes se tornarão. O problema é que esse fortalecimento nem sempre ocorre também na mente.

Especialistas apontam que a redução desses problemas passa por uma mudança de hábitos: menos tela e mais vida real, menos conexões virtuais e mais encontros presenciais, menos fotos e mais natureza. Não parece tão difícil. O desafio está em quebrar o ciclo. Quando acontecer, quero estar na academia para ver todos verdadeiramente saudáveis, de corpo e de mente.

Ayne Regina Gonçalves Salviano é jornalista, professora e mestre em comunicação e semiótica com MBA em gestão educacional