26 de fevereiro de 2026
CRONÍCULAS

Garoto exportação

Por Jeremias Alves Pereira Filho | especial para a Folha da Região
| Tempo de leitura: 2 min

Imagine, caro leitor, um moleque curioso, entusiasmado e ainda querendo falar inglês, quando mal versava português. Nem tinha nascido aqui, vindo menino de Penápolis aos 6 anos. E já se virava sozinho, varrendo quintais dos vizinhos mais aquinhoados para faturar uns trocados, o que seu admirado pai também fazia profissionalmente ao vender amendoim assado em cones de papel jornal no movimentado “footing” do entorno da praça Rui Barbosa, compreendendo a Marechal e Osvaldo Cruz. Tinha nele o exemplo. Não possuía sequer um novo par de sapatos para chamar de seu, tão humilde economicamente era a família e, quando conseguiu um jogo de “alpercatas”, sentiu-se um “gato de botas”.

Um belo dia partiu para a capital e foi morar na casa da irmã, sem perder o entusiasmo pelo trabalho e no porvir. Fez o que pode para se manter e continuou se virando como engraxate e ralou fundo nos estudos, sem mesmo saber o que estava estudando. Aos dezesseis anos resolveu voltar para Araçatuba e ralou de novo como office-boy e cobrador de contas, o que fazia pedalando sob o exclusivo sol local depois das aulas no IE Manoel Bento da Cruz, considerada a melhor instituição de ensino do Estado. E era mesmo!

Tão desenvolto intelectualmente o rapagote que não teve a menor dificuldade em passar no concurso de acesso à nobre Polícia Militar com base na cidade e, assim, com um salário garantido, pode se dedicar ainda mais ao aprendizado de inglês, seu sonho de infância e que, até então, aprendia “por conta própria”. E, por isso, acabou destacado para acompanhar o Consul americano que visitava a cidade, arranhando o idioma como “tradutor”. Desempenhou tão bem e pleno de entusiasmo que contagiou o diplomata que por ele se interessou e o convidou para um intercâmbio nas Américas. Nem acreditava no que estava acontecendo, mas decidiu vender sua lambreta velha e comprar malas novas.

Lá manteve o empenho e obteve graduação em Geologia e Engenharia Química, pela Utah University, e, de quebra, o LLMM em Business Administration, pela BYU-Brigham Young University. Estava pronto para ganhar o mundo e assim foi, tornando-se professor e admitido no restrito time de engenheiros do Departamento de Defesa Americano, enquanto residia em Virgínia, próxima a Washington/DC.

Virou Diretor e rodou o mundo chegando a ser nomeado membro da Nato (Otan) falando espanhol, italiano, francês e, claro, inglês e português. Nessa altura, já era cidadão americano, título que lhe foi outorgado por puro merecimento. Esse garoto era o José Carlos Nellis, araçatubense de coração que lá nos USA, onde vive, é o professor Joseph Nellis. Enfim, um vencedor! Saravá, ZéNellis, digo eu!   

Jeremias Alves Pereira Filho é sócio de Jeremias Alves Pereira Filho Advogados Associados, especialista em direito empresarial e professor emérito da UPM-Universidade Presbiteriana Mackenzie. Araçatubense nato