"Okê-okê, Oxossi / Faz nossa gente sambar/ Okê-okê, Natal/ Portela é canto no ar”. Os amantes do samba, certamente, devem conhecer bem esses versos. Pertencem ao refrão do samba-enredo “Contos de Areia”, que levou a Portela ao título do histórico carnaval de 1984, o primeiro realizado no sambódromo da Marquês de Sapucaí.
Mas esse clássico do universo das escolas de samba tem uma curiosidade. Um de seus autores, o Dedé da Portela, era filho de Araçatuba. O sambista nasceu em 28 de maio de 1939, batizado com o nome de Edson Fagundes. A cidade, à época de seu nascimento, ainda era uma “menina” com apenas 31 anos de existência e vastas áreas rurais.
As dificuldades financeiras e a busca por melhores condições de vida levaram a família a procurar um novo rumo. Assim, quando Edson tinha apenas 6 anos de idade, foi morar em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, conforme consta na sinopse do enredo da escola de samba Leão de Nova Iguaçu, que o homenageou no carnaval de 2020.
Por isso, informações referentes à relação do músico com sua terra natal têm sido objeto de pesquisas de estudiosos da história da cidade e do próprio samba que, coincidentemente, tem o seu dia comemorado na mesma data de aniversário de Araçatuba: 2 de dezembro.
Apesar dos desafios enfrentados, Edson se tornou um dos maiores nomes da história deste gênero musical, o mais brasileiro de todos. Por dez anos, entre 1984 e 94, foi intérprete de sambas-enredo da Portela – escola de samba com 102 anos de existência e, ainda na atualidade, a maior detentora de títulos no carnaval carioca. São 22 vitórias, ao todo.
No período em que foi a voz oficial da azul e branco do bairro de Madureira, no Rio, Dedé interpretou sambas-enredos inesquecíveis para os portelenses. Dentre os quais, “Adelaide, a pomba da paz” e “Tributo à vaidade”, premiados como os melhores de 1987 e 1991, respectivamente, no concorrido Estandarte de Ouro do jornal “O Globo”.
Outros grandes “hinos” da majestade do samba, também eternizados na voz de Dedé, foram “Quando o samba era samba”, de 1994, reeditado pela escola de samba União do Parque Curicica 19 anos depois; e “Lenda carioca, sonhos do vice-rei”.
Este que, de tanto sucesso no período pré-carnavalesco de 1988, levou o araçatubense a se apresentar em um dos mais marcantes programas de auditório da televisão brasileira: o Cassino do Chacrinha, exibido na TV Globo nos anos oitenta e apresentado pelo saudoso Abelardo Barbosa, o “Velho Guerreiro”.
No entanto, “Contos de Areia” permanece como seu samba-enredo de maior sucesso. A letra, composta em parceria com Norival Reis, chegou a ser regravada por outros bambas de respeito como Mestre Marçal, Alcione e Diogo Nogueira. A obra homenageia três estrelas do panteão portelense: Paulo da Portela, Natal e Clara Nunes, ícone da MPB e falecida, precocemente um ano antes.
No carnaval de 2004, 20 anos após sua criação, “Contos de Areia” foi cantado pela escola de samba Tradição. Ainda como compositor, Dedé também foi o autor – junto com Catoni, Jabolu e Walter Emil – de “Festa da Aclamação”, que ajudou a Portela a chegar ao vice-campeonato no carnaval de 1977.
Mas como Edson Fagundes se tornou Dedé da Portela? Como o menino negro do interior paulista, de origem humilde, conseguiu destaque numa agremiação que concentra tantas referências (ainda vivas ou já falecidas) quando o assunto é samba, como Paulinho da Viola, João Nogueira, Noca e Monarco?
Sua carreira artística começou na Leão de Nova Iguaçu, em 1962. O pontapé para o sucesso ocorreu em dez anos. De acordo com a edição de 6 de dezembro de 1992 de “O Globo”, Edson Fagundes passou a integrar a ala dos compositores da Portela em 1972, a convite do então presidente da agremiação, Carlinhos Maracanã.
No mesmo ano, gravou sua primeira música, “Madrugada”, em parceria com Zuzuca. Desde então, até 92, Dedé contabilizava 258 músicas gravadas. Dentre elas “Senhora rezadeira”, com Beth Carvalho; “Volta da gafieira”, com Alcione; e “Mais uma aventura”, com o grupo Fundo de Quintal.
Dessa relação com grandes sambistas, dizia que, com Elza Soares, aprendeu a conservar a voz comendo maçã. Em 1989, lançou seu primeiro disco, “Coisas de Amor”. No ano seguinte, veio o segundo, “Falsas razões”. Já o terceiro, de 1992, considerado por ele próprio sua melhor obra, revive clássicos do samba e traz como destaque a música “Favela”.
Enquanto, em Araçatuba, o sambista é quase desconhecido pelo grande público, em Nova Iguaçu – onde viveu a maior parte de sua vida, teve seus cinco filhos e faleceu em 2003, aos 64 anos, em decorrência de um derrame – seu legado é preservado. Em 2012, ganhou homenagem póstuma em praça pública.
Na ocasião, foi entregue pela ONG Trem da Harmonia Destino da Baixada um busto do cantor e compositor na Praça Tertuliano Potyguara. Foi o reconhecimento a quem “fez da vida poesia”, como a “Leão” a ele se referiu no samba em sua homenagem, baseado em verso de “Contos de Areia”, sua obra-prima.