Reportagem da Revista Piauí destaca que carregamento de armas capazes de derrubar até um helicóptero tinham origem no Paraguai
As armas usadas no ataque no mega-assalto com reféns em Araçatuba teriam sido fornecida aos bandidos pelo PCC (Primeiro Comando da Capital). A denúncia foi publicada ontem pela revista Piauí.
De acordo com a revista, no o último dia 25, quarta-feira, dois integrantes do PCC de Mato Grosso do Sul conversaram por celular sobre um grande carregamento de armas que a facção criminosa pretendia trazer do Paraguai para o Brasil por aqueles dias. Eram sessenta fuzis no total, dois deles calibre 50, capazes de derrubar aeronaves, que seriam trazidos até o interior de MS por helicóptero. O diálogo teria sido captado pelo setor de inteligência da Polícia Federal, que não conseguiu apreender a aeronave.
Ainda segunda a reportagem, a PF, o Ministério Público paulista e a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) suspeitam que esse arsenal foi utilizado no mega-assalto da noite do último domingo em Araçatuba, quando pelo menos trinta assaltantes cercaram a cidade, explodiram duas agências bancárias da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil, fizeram reféns (quatro deles foram amarrados sobre os capôs dos veículos dos criminosos durante a fuga) e conseguiram fugir, deixando para trás, na área central da cidade, 40 bombas em dezessete pontos da cidade, fabricadas com dinamite e acionadas por celular ou sensor de proximidade e um drone utilizado para acompanhar a movimentação da polícia.
A publicação destaca que foi uma ação que chocou a população não só pelo poderio do arsenal utilizado, mas também pelo fato de o ataque ter ocorrido em uma cidade onde existe um BAEP (Batalhão de Ações Especiais de Polícia), o equivalente, no interior do estado, à Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), na capital.
Três pessoas morreram e três estão internadas em estado grave – uma delas, um rapaz de 25 anos que andava de bicicleta no Centro teve as duas pernas amputadas após a detonação de um dos explosivos.
INTEGRANTE
Já se sabe, segundo as primeiras investigações, que o assalto teve envolvimento direto de integrantes do PCC. Um dos três mortos era Jorge Carlos de Mello, 38 anos, preso pela primeira vez em Diadema, na Grande São Paulo, por tráfico de drogas e posse de três bananas de dinamite, escondidas em sua casa, em 2001.
Entre idas e vindas da cadeia, Mello seria ainda condenado outras três vezes por homicídio e roubo. Em 2012, tentou fugir da cadeia, sem sucesso. Passou por pelo menos três penitenciárias do interior paulista, a última delas em Mirandópolis, conhecido reduto do PCC. Mello deixou a cadeia pela porta da frente em março de 2017.
A principal hipótese da PF é de que o assalto não tenha sido cometido a mando da cúpula da facção, mas por integrantes dela, e que o PCC tenha emprestado as armas e bombas em troca de um percentual do roubo, como ocorreu no assalto à transportadora de valores Prosegur em Ciudad del Este, Paraguai, em abril de 2017, quando os criminosos levaram 11,8 milhões de dólares dos cofres da empresa.
Seis meses depois, criminosos ligados ao PCC voltaram a assaltar uma filial da Protege, dessa vez em Araçatuba, e levaram 10 milhões de reais. Um policial civil foi morto pelo bando – um ano depois, catorze homens e duas mulheres foram presos acusados de envolvimento no crime. Às margens da Rodovia Marechal Rondon (SP-300), Araçatuba é uma cidade de 200 mil habitantes, que fica a cerca de 500 km de São Paulo e hoje é um importante polo canavieiro do estado. Pela sua localização, tornou-se um ponto importante na rota da cocaína que sai da região de Corumbá (MS) com destino à capital paulista, muito utilizada pela facção criminosa. Araçatuba é o segundo município com Baep alvo do “novo cangaço” – o primeiro foi Ribeirão Preto, em 2016.
O ASSALTO
A maior parte da ação criminosa em Araçatuba se concentrou na Praça Rui Barbosa, que fica no Centro da cidade. É uma área comercial, com lojas de roupas, óticas, drogarias – e, mais importante, vários bancos. Ali ficam as agências da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil que foram atacadas pela quadrilha de assaltantes. No entorno, também há agências do Santander, Banco Safra e Banco Mercantil do Brasil.
Hospedado no Grande Hotel, que fica em frente à agência do Banco do Brasil, Anderson Roberto acordou com o som de tiros e bombas. Ficou apavorado. Ele e um colega chegaram a Araçatuba há alguns dias, numa viagem a trabalho, e estão dividindo um quarto no hotel. São funcionários de uma empresa que faz montagem de equipamentos industriais. “Da janela do meu quarto, dava para ver uma caminhonete branca dando voltas no quarteirão, com um refém amarrado no capô. Parecia filme de ação. Nunca ouvi tanto tiro e explosão na minha vida”, conta Roberto, um alagoano de 38 anos. “Era rajada de fuzil, de metralhadora. Depois começaram as bombas. Foi assustador.”