RECONHECIMENTO Aron Feldman realizou produções de baixíssimo orçamento e foi tachado de 'alucinado' e 'maldito'
Araçatuba
Da redação
pautasfr@gmail.com
O cineasta Aron Feldman teve sua trajetória profissional resgata no livro "Aron Feldman - Cinema nas Veias" lançado ontem (18), pela Editora Bartira. Escrita por seu filho, Cláudio Feldman, a obra pretende trazer à tona os trabalhos do cineasta, uma vez que foram pouco valorizados na época de seus lançamentos.
CENSURAS
Com uma câmera na mão, meia dúzia de ideias na cabeça e quase nenhum dinheiro no bolso, Aron Feldman conseguiu um façanha em 1972. Seu primeiro longametragem, "O Mundo de Anônimo Jr.", foi tolhido pela ditadura militar em duas instâncias.
Primeiro, o departamento de censura determinou o corte de duas cenas. Até então, a produção de Feldman ainda poderia chegar às salas de exibição. Mas o golpe maior veio de uma comissão do INC (Instituto Nacional de Cinema) que proibiu o filme de entrar em cartaz em circuito comercial. O motivo alegado foi precariedade.
Figuras influentes do cinema brasileiro da época se manifestaram contra a proibição. "O infortúnio teve em todo o caso o mérito de sublinhar mais uma vez o alheamento e a ignorância da comissão carioca que se responsabilizou pela marginalização de 'Anônimo Jr.'", escreveu Paulo Emílio Sales Gomes, professor da Universidade de São Paulo e crítico.
Assim, o filme mais comentado de Feldman, diretor de família judaica, se restringiu à projeção em cineclubes e pequenos espaços culturais, especialmente em Santo André, na Grande São Paulo, onde ele passou a maior parte da vida, e em São Paulo. Poucos puderam ver em tela grande o delírio e o deboche da saga de Anônimo Jr., rapaz que foge do manicômio para morar num cemitério, onde tem casos amorosos e bate papo com um camundongo.
HISTÓRIA
Nascido em 1919 na pequena cidade gaúcha de Quatro Irmãos, Feldman sempre viveu de vender coisas, de tecidos a móveis, como conta seu filho e autor da obra. Boa parte do dinheiro conquistado no comércio ia para produções de baixíssimo orçamento, que só eram concluídas graças à persistência de um autodidata.
Cláudio, aliás, fala do pai como um "homem-equipe", que quase sempre conciliava a produção, a direção, a câmera, o som e a montagem dos filmes.
"Eu faço filmes à margem dos marginais", disse Feldman num vídeo em sua homenagem. "O pessoal do cinema marginal nunca aceitou meu pai. Até pelo fato de ser do ABC, meu pai frequentava pouco a Boca do Lixo, não era da patota", afirma Cláudio.
Quando morreu, em 1993, Feldman contabilizava 22 filmes, de "Pinceladas", de 1958, a "Afogados", de 1993. Filmou especialmente curtas, mas fez também alguns longas e médias. Ele se arriscou na ficção e no documentário e transitou por diversos formatos, super-8, 16 milímetros, 32 milímetros e VHS.
CRÍTICAS
Críticos classificaram seu cinema como "alucinado", "estranho", "maldito", "neorrealista" e "naïf", e se referiram a ele como "artesão marginal" e o "patriarca do cinema do ABC". Segundo o autor do livro, Feldman foi, sim, tudo isso. "Mas, no fim das contas, o mais exato é dizer que ele foi um amante do cinema." "Meu pai gostava dos diretores do neorrealismo, como Fellini e Visconti nos seus primeiros filmes, De Sica. Depois ele conheceu Buñuel, que influenciou muito o humor negro e o sarcasmo em 'Anônimo Jr.'", afirma Cláudio.
REFERÊNCIA
O cineasta foi tema de mostras no Centro Cultural São Paulo, em 1988, e no Centro Cultural Banco do Brasil, em 2008, ambos em São Paulo, e alguns dos seus filmes se destacaram em festivais, como o curta documental "Casqueiro", de 1966, e o longa de ficção "A Odisseia de um Cadáver", de 1988.
Segundo Cláudio, seu pai representava "o outro lado do cinema do ABC", a vertente modesta e alternativa em contraponto à Vera Cruz, estúdio de São Bernardo do Campo que se dedicou a produções comerciais nos anos 1940 e 1950. "Mariana, Paraná e Greve", de 1984, por exemplo, é um registro curioso das lutas sindicais em Diadema.