Em meio à pandemia do coronavírus, em que instituições hospitalares Brasil afora sofrem com falta de verbas e vivem apertos com superlotação, a Santa Casa de Araçatuba fechou 2020 diferente. Pelo menos em termos de caixa, porque a superlotação é uma realidade e o hospital, inclusive, trava batalha verbal com o Estado pela habilitação da abertura de ao menos mais cinco leitos pediátricos.
Mas a Santa Casa tem o que comemorar, pelo menos em razão da situação em que se encontram seus cofres. Conseguiu fechar o ano com superávit de R$ 3.797.789,89. É o primeiro resultado positivo obtido nos últimos anos pela instituição, que historicamente registra déficits significativos entre o que arrecada e o que investe.
Para garantir atendimentos de alta complexidade para 40 cidades da região de Araçatuba, a entidade necessita de aportes financeiros governamentais e privados. O superávit registrado está na prestação de contas divulgada ontem (13) pela Santa Casa. Segundo o hospital, em 2019, por exemplo, o déficit financeiro da entidade foi de R$ 9.892.499,47.
De acordo com a Santa Casa, a situação financeira mudou em 2020 após ajustes nas despesas e crescimento de entradas de recursos governamentais e da comunidade, por meio de repasses e doações espontâneos ou captados através de setores criados pela direção do hospital para atrair novas receitas.
Apesar de 2020 registrar o início da pandemia do Coronavírus, o hospital de Araçatuba conseguiu aumentar o volume de emendas parlamentares captadas através da Secretaria Executiva. “As abordagens presenciais realizadas em Brasília, no ano passado, junto a deputados federais resultaram R$ R$ 4.835,572,00 em emendas, a maioria para custeio dos atendimentos a pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). Em 2019, o total captado foi R$ 3.250.000,00”, explicou o diretor clínico da Santa Casa de Araçatuba, Dr. Fábio Bombarda.
O hospital justificou, ainda, que o impacto positivo na gestão financeira teve melhora com a entrada de recursos governamentais para financiamento de atendimentos aos pacientes relacionados ao coronavírus e as doações em dinheiro e em insumos feitas pela comunidade, que ajudou o hospital na maior crise sanitária dos últimos anos.
Foram R$ 6.081.496,03 em aportes governamentais e privados. O hospital também recebeu equipamentos dentre respiradores, monitores multiparâmetros, camas e colchões estimados em R$ 4,5 milhões, e milhares de unidades de insumos dentre máscaras, aventais, luvas, viseiras e álcool em gel.
Em 2020 a estrutura do Bloco Covid foi composta de 70 leitos em enfermarias e 25 leitos de UTI.
Esta estrutura possibilitou 1.162 internações de pacientes em quadros clínicos graves decorrentes de confirmação e/ou suspeita de infecção pelo Coronavírus, entre abril e dezembro de 2020. Nesses números, de acordo com a Santa Casa de Araçatuba, não estão computados pacientes atendidos no Serviço de Urgência e Emergência que receberam alta após serem estabilizados.
Do total de internados, 674 foram tratados em leitos de isolamentos e 488 na UTI Respiratória. Outros 733 receberam alta por cura.
“A transformação da Santa Casa de Araçatuba em hospital de referência também para tratamento da Covid provocou impacto em outros serviços. Para preservar os recursos multidisciplinares, leitos e insumos e para atendimentos exclusivos das urgências e emergências e dos pacientes relacionados à Covid, a direção do hospital suspendeu de abril a setembro e em dezembro a realização de cirurgias eletivas e atendimentos do Ambulatório de Especialidades. A medida fez parte do protocolo de contingenciamento do Ministério da Saúde e da Secretaria Estadual de Saúde”, disse o diretor clínico.
Em decorrência da suspensão, a quantidade de cirurgias caiu de 20.892 procedimentos realizados em 2019 para 13.118 em 2020. No Ambulatório de Especialidades a redução foi ainda maior: 8.794 consultas realizadas em 2020, contra 27.157 em 2019.
“O apoio financeiro e material foi decisivo para que a Santa Casa de Araçatuba atendesse essa nova demanda, que atingiu picos desesperadores entre os meses de junho e agosto. Desde o início da pandemia, a instituição foi estruturada para atender estes pacientes. Criamos praticamente um hospital dentro do hospital e surpreendemos até mesmo nos detalhes”, completou Fábio.
AUTONOMIA
Impedida recentemente pela Vigilância Sanitária do DRS (Departamento Regional de Saúde) de abrir nos leitos de UTI Neonatal e Pediátrico para pacientes Covid, a Santa Casa de Araçatuba pode, com esse saldo positivo, instalar novos leitos para o tratamento de pacientes com Covid. A reportagem da Folha da Região aguarda posicionamento do Estado sobre esta autonomia para que o hospital invista no setor, desde que atenda aos critérios da Vigilância Sanitária.
Nove milhões em obras
A Santa Casa de Araçatuba informou que em 2020 a entidade promoveu construções, ampliações e reformas para modernização de seu complexo hospitalar.
Dados do hospital mostram um total de 18 obras (médio e grande portes) executadas ou em fase de realização. O conjunto de obras demandou R$ 9.057.026,07 em aportes da instituição, governamentais e de parcerias importantes, como por exemplo, com a CPFL Energia, Plano de Saúde Santa Casa de Araçatuba, UniSalesiano, Ministério do Trabalho e Justiça do Trabalho de Araçatuba.