Por telefone veio o pedido para não ser identificado. Quem conversa com a reportagem da Folha da Região trabalha na linha de frente no atendimento do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, o Samu, em Araçatuba. “Nos últimos meses está corrido, temos os atendimentos ‘normais’ que fazemos, mas na questão da Covid-19 também está presente. Temos uma média de dez transportes por dia, notamos uma leve redução dessas saídas (atendimentos), mas no geral, se mantém nesse número e as saídas são para atender os casos de Covid-19, que voltaram a crescer”.
Responsáveis pelos atendimentos pré-hospitalares nas ruas ou casas, e pelo transporte de pacientes, ser profissional do Samu demanda agilidade, capacidade técnica e habilidade de se conectar com a situação do paciente. O principal tema mundial deste ano - a pandemia - afetou diretamente o cotidiano do Samu. “Passamos por meses nos adaptando às chamadas recorrentes de pessoas que apresentavam os sitomas da Covid-19 precisando de atendimento, tivemos que nos adaptar a essas atividades, para minimizar o risco do nosso grupo. E continuamos a atender acidentes de veículos, o que aumentou nos últimos meses, principalmente acidentes envolvendo motociclistas”, conta o socorrista que concedeu entrevista para esta reportagem.
No país, enquanto os índices pré-quarentena de isolamento social voltam a se destacar, a quantidade de casos e mortos relacionados à pandemia também escala o ponto de observação do governo. O resultado é que os profissionais do Samu, no interior paulista, também começam a sentir os efeitos.
O monitoramento se torna constante porque temem que aos problemas de um dia “normal” de trabalho, venham a se somar os da pandemia, o que sobrecarregar o sistema. “Para atender pacientes com sintomas de Covid-19 foi formada uma equipe específica, só pra fazer o transporte, o serviço é feito por uma empresa terceirizada.
Na equipe são dois profissionais, que atuam pela manhã e outra à noite. Todos os dias tem chamadas, pessoas que ligam pedindo atendimento, essas ligações passam pela triagem de um médico, que em algumas situações consegue fazer um atendimento via telefone, mas em outras, precisamos nos deslocar para atender.
Eu mesmo já precisei fazer umas seis viagens para não sobrecarregar a equipe que atende pacientes com Covid-19. Já cheguei a contar só no meu turno umas 30 chamadas por dia, sendo 10 feitas por telefone”, completa o profissional do Samu. Um outro socorrista, que atende pelo Samu de Araçatuba, diz que teve um aumento significativo nos casos de AVC – Acidente Vascular Cerebral – e de infarto. “O pessoal não está respeitando o isolamento, o pessoal mais novo tá passando o vetor da transmissão.
Percebemos um aumento importante de pessoas com doenças crônicas, pode ser por causa do relaxamento do tratamento ou ficaram sem acompanhamento nos últimos meses”, explica o socorrista. “Há uma preocupação em salvaguardar os profissionais de saúde. Um dos atendimentos que mais marcaram os últimos meses em um atendimento assim, foi perder um amigo muito próximo para a pandemia.
Ele era diabético e em menos de 20 dias faleceu. A gente tentou ajudar pelo Whatsapp, pedíamos para ele procurar ajuda, mas já era tarde... o pulmão estava comprometido. Ele era enfermeiro e trabalhava na linha de frente”, desabafa o resgatista de Araçatuba. Carlos Mori, Diretor Técnico do Pronto-Socorro Municipal e do Samu de Araçatuba, admite que a situação inspira cuidados, e sobre o enfrentamento da pandemia comenta que “não apenas por conta dos profissionais de saúde ou de serviços relacionados à saúde, mas como a de toda a população. Notamos sim uma queda no quantitativo de pacientes atendidos em nosso estabelecimento, tanto pelo PS quanto pelo Samu nos últimos meses, mas temos acompanhado de perto os picos de procura de pacientes assintomáticos. E isso pode estar relacionado às aglomerações e festas, momentos em que a população se descuida”.
NÃO DÁ CONTA
Em Araçatuba, entre Julho e Dezembro, foram realizados 1.888 atendimentos de suspeitas ou confirmações de Covid-19 pelo Samu e nos primeiros dias de dezembro já acumula alta. “Hoje o poder público não consegue dar conta de conter as aglomerações por isso dependemos da responsabilidade de cada um. No nosso atendimento pré-hospitalar a gente pode dizer que houve um decréscimo e acompanhou a curva de pacientes acometidos pela doença em nossa cidade.
Um dos termômetros no atendimento de pacientes mais graves é o Samu, porque ele consegue identificar não só o atendimento primário mas também as transferências no quantitativo. E hoje a gente vê uma curva que foi descendente, mês a mês, porém a gente nota, picos de atendimentos, então chegamos a atender uma grande demanda, chegando a atender de 28 a 32 atendimento em 24 horas. ” E acrescenta: “temos plantões em que atendemos 2 pacientes, aí no outro dia, atendemos mais 18. Então há uma oscilação no atendimento”, completa. NADA
ESTABILIZOU
Para Carlos Mori, a lição é diária, para ele o descuido não pode ser nem considerado no momento. O suporte hoje do Samu para toda a população de Araçatuba é composto por: - Uma unidade de suporte avançado, dotada de equipamentos e um socorrista, um enfermeiro e um médico, - Uma ambulância de suporte intermediário, dotada de equipamentos e um socorrista, um enfermeiro e um técnico de enfermagem e - Uma ambulância de suporte básico, dotada de equipamentos e um socorrista e um técnico de enfermagem. “São só três viaturas para a população não sintomática.
Para a população sintomática, que possuem os sintomas referentes ao convid-19, a gente conta com uma ambulância de suporte avançado e um básico. Não podemos descuidar”, ressalta. De acordo com o Diretor, o atendimento é muito bem articulado em todas as esferas, seja na Atenção Básica ou na Especializada. “Hoje é um instrumento de eficiência e trouxe um grande benefício com sua estruturação”, aponta Mori. “Em relação aos casos de infarto e de AVC de fato houve um aumento significativo, de pessoas com doenças crônicas. Isso foi discutido com a secretaria de saúde e departamento de atenção básica e montou-se uma intervenção relacionado a isso. Posso garantir que todo o trabalho feito em rede, funciona. Vimos esse aumento e iniciamos uma atuação”.