Alguns dias atrás, lendo um conto de Ray Bradbury, me peguei lembrando de um velho companheiro: o antigo telefone, no meu caso, preto, pesado, que ficava em silêncio, pregado à parede do hall da casa.
Todos os dias, quase sempre à mesma hora (23:00 horas, mais ou menos), o mecanismo tocava a sineta de seu telefonema. Naquela época não dava para escolher o som das chamadas. Era sempre o famoso TRIM…TRIM…TRIM… Quase exatamente o momento em que eu chegava da faculdade. O período diurno era feito para trabalhar. Quem podia, ou queria estudar, sobrava o período noturno. Era o meu caso. Então, através daquele aparelho, tomava forma o doce som de uma fala feminina.
Alguém que, de alguma forma, me conhecia pelas indicações fornecidas, apesar de eu nem fazer conta de quem era a pessoa do outro lado da "linha". Uma suave voz sem corpo.
No começo eu suspeitava de trote, pegadinha, ou coisa do tipo. Mas, com o tempo, relaxei minha postura e praticávamos uma conversa versada sobre inúmeros conteúdos: ações cotidianas; gostos e apreciações sobre quase tudo da vida; indagações e respeito de desejos, valores; futuro e presente; possibilidades e, sempre, sobre relações interpessoais, carinho, afeto, amor.
A entidade anônima nunca me disse explicitamente quem era ou qual o real propósito de suas ligações. Demonstrava saber de mim tantas coisas e me encantava com sua interlocução, repleta de charme e feminilidade.
Com o tempo, nossas conversas foram ficando cada vez mais íntimas. A frequência era quase religiosa. Um ritual diário. Falávamos de nós como se fossemos velhos amigos. Namorados. Amantes. Eu, completamente seduzido e entregue a um ser invisível e omnipresente nos minutos dos meus dias e em meus pensamentos.
Mesmo com todo o esforço empreendido e capacidade de memorização de algumas possíveis pistas de como reconhece-la, nunca fui capaz de torna-la uma pessoa concreta. Cabeça, tronco e membros. Aquela que, em minha mente, seria uma visão angelical, suave ao toque, vibrante à carícias, romântica nas palavras, ações e intenções trocadas em harmoniosa intimidade.
Estas circunstâncias permaneceram por algum tempo. Não tanto quanto eu gostaria, mas suficiente para entender que sua continuidade afetaria meu juízo e minha estabilidade emocional. Não dava mais para suportar tamanha vontade de estar fisicamente juntos. De compartilhar meus sonhos, desejos e planos. Tudo começava a emaranhar, complicar, desmoronar.
Não se tratava, apenas e tão somente, de deixar de atender ao toque do telefone. A insistência do som pela casa silenciosa colocava-me como refém da vontade de atender e prolongar mais algumas horas de puro prazer. Masoquista, talvez, prostrava-me ao jugo de uma doce "dominatrix". Um abatido animal ao sabor de palavras afáveis e lisonjeiras, tão eficientes como uma seta que acerta o centro do alvo.
Mudei de cidade e fui viver em tempo de solidão. Pronto para recolher os cacos espalhados e recompor um ser humano dilacerado. Dei o caso por encerrado e enterrado.
Hoje, ao ler o tal texto de Bradbury, percebo a incrível lição apreendida. O sabor da presença oculta de alguém, que até hoje não sei quem foi, continua a adoçar o céu da minha boca.
Reynaldo Mauá Júnior - Membro da Academia Araçatubense de Letras