RONALDO RUIZ GALDINO
Estou sentado à escrivaninha faz uma meia hora. O cursor pisca na folha em branco do processador de texto, que está na minha frente. Preciso escrever uma crônica para o próximo domingo, mas não tenho nenhum tema sobre o qual falar. Dou uma bebericada no café e coloco a xícara, ilustrada com um desenho pop-art, sobre um descanso de copo com temática de super-heróis.
Uma página em branco é sempre uma tortura para um escritor, que, de vez em quando, tem esses bloqueios, como o que estou tendo nesta noite.
Dizem que as melhores crônicas do Rubem Braga, o maior de nossos cronistas, eram aquelas em que, justamente, ele não tinha assunto nenhum. O Braga era assim: conseguia extrair o sentido profundo de tudo, até mesmo quando apenas observava um homem nadando no mar. Ele fazia contrair o nervo divino de todas as coisas, como dizia o Ortega Y Gasset. Mas o Braga era um gênio e eu sou apenas um pouco curioso.
O Machado de Assis escreveu, certa vez, que a primeira crônica da história da humanidade, provavelmente, surgiu durante uma conversa entre duas vizinhas, entre o jantar e a merenda, que começou com uma reclamação sobre o calor.
Depois os assuntos foram se sucedendo, um puxando o outro: do calor para a camisa mais ensopada do que as ervas que uma delas tinha comida; das ervas para as plantações do vizinho da frente; das plantações deste para as "tropelias" da vida dele; e "ao resto, era a coisa mais fácil, natural e possível do mundo", escreveu o Bruxo do Cosme Velho. Mas o Machado era um gênio e eu sou apenas um pouco nerd.
Realmente, uma crônica pode ser sobre qualquer assunto. Quanto mais trivial ele parecer, melhor. Dá para começar do húmus de minhoca e terminar nos confins do Universo.
Gosto da liberdade desse gênero e também da possibilidade que ele oferece de pegar coisas minúsculas que fazem parte da nossa vida e ampliá-las, como se você desse um zoom de mais de 100% no detalhe de uma foto no computador.
Porém, hoje estou com dificuldade de escrever até sobre as coisas mais pequenas e banais do cotidiano.
Tomo o resto do café, já um pouco frio, e coloco a xícara sobre o descanso de copo. É. Não vai rolar. Melhor não insistir. Fecho o processador de texto, desligo o computador e vou para a cama. Além da sensação de fracasso, penso com receio que nunca mais vou conseguir escrever sobre nada.
Adormeço.
Ronaldo Ruiz Galdino é jornalista