EMÍLIA GOULART
Uma vida já bem vivida nos prega algumas peças, esquecer de por sal na comida não é a pior. Pior é quando nossa memória falha e o assunto sai a passeio nos deixando no ar com a ridícula pergunta:
- Do que mesmo eu estava falando?
Essa pergunta cada dia mais presente nas nossas conversas é constrangedora. Por mais que tentamos rir a situação passa longe de uma comédia.
A memória que falha é fogo. Quando isso me acontece, é como estar numa saia justa muito desconfortável. Saia justa e saltos altos, combinação perfeita para derrubar alguém. Quando menos esperamos, estamos rolando no chão, feito bolas de meias nos pés da molecada.
Dois fatos entre tantos outros, me colocaram assim nessas situações nos últimos meses.
Em uma tarde qualquer, caminhava tranquila, pois já não carrego mais a pressa de antes, quando ao longe avistei uma pessoa que vinha em minha direção com sorriso de velha amiga. Contagiei-me e sorri também, mas não esperava que aquele sorriso , acompanhado de saudosas palavras e um generoso abraço me colocasse em uma saia tão justa.
- Emília, há quanto tempo? Nossa! Você está muito bem ( gentileza dela) e olha que faz uns quinze anos que não a vejo.
Eu muito sem jeito, mas sem querer demonstrar minha falta de lembrança disse:
- Acho que faz um pouco mais, sua filha como vai? Deve estar moça.
Achei que iria marcar um gol, mas a bola passou longe. Muito delicada minha amiga segurou minha mão e disse:
- Nunca me casei e não tive filhos.
Queria ouvir dela alguma pista em que nossas lembranças se completassem. Sua resposta não me ajudou em nada. Senti vontade de dizer. "Quem é você, a conheço? "
Mas, como não sou humorista nem mal-educada, hum! Tento não ser. Mas, considero de um mal gosto repetir esses jargões, eles ficam bons na telinha. Aprendi calar, depois de algumas asneiras ditas sem pensar.
A conversa fluía e eu ali entre um nome e uma fisionomia, quando um surgia o outro escapava. Por fim fui salva, a moça que estava com ela a puxou pelo braço, mostrando-se apressada.
- Até o próximo encontro amiga. Que não demore tanto.
Espero que o próximo encontro seja de fato entre duas grandes amigas. Eu que não uso mais saia tão justa, estou na fase do disfarçar e não realçar. Espero me sair melhor no próximo encontro. Espero.
Agora, o salto alto, como ele nos envaidece. Alguns nos faz sentir uma pessoa especial,contudo, um passo em falso e em câmera lenta nos espatifamos é preciso muito cuidado. A escada que nos coloca no alto é a mesma que nos derruba e não são poucos os que aparecem para dar um empurrãozinho.
Foi numa noite durante o lançamento do livro de um amigo.
A ocasião era propícia. Grupos de pessoas conhecidas ou não, se encontram. Entre elas muita gente boa e outras não tanto. Se te impulsionam para um salto muito alto não esperes ajuda se cair, elas estão seguras da sua queda.
Duas conhecidas ao me avistarem me chamaram. Queriam me apresentar a um pequeno grupo de intelectuais, falaram dos meus escritos, não pouparam elogios, falaram dos contos, dos romances e foram adicionando elogios que me colocaram em um salto alto de difícil equilíbrio.
Notei que o propósito de tantos elogios, era me ver derrapar nos erres e eles. Prevenida, por não desconhecer o talento que algumas pessoas têm em preparar ciladas, desci do salto antes da queda.
Foi mais fácil que imaginei, falei da minha dificuldade com os erres e eles. Palavras, claro e problema, mesmo quando acerto, fico com aquela sensação de ter errado. Não chego ao Cebolinha, mas os erres e os eles têm sido meus carmas, pedrinhas constrangedoras espalhadas no meu doce deleite de me sentir escritora.
O objetivo das "amigas" era mesmo me causar embaraço.
Despi-me do mito criado por elas e livre para ser eu mesma permaneci entre o grupo de intelectuais, doutores e mestres em letras. A conversa sobre as inúmeras biografias de grandes escritores que enfrentaram dificuldades parecidas.
Não era o que elas esperavam, e com o jogo em andamento receberem o cartão vermelho e saíram a circular.
Emília Goulart - MEMBRO DA ACADEMIA ARAÇATUBENSE DE LETRAS