CLAUDEMIR GOMES
Quando Fernando Antônio Assis Lemos, meu aluno no curso de psicologia, me convidou para escrever no jornal Folha da Região, há dois anos, e que deveria assumir uma coluna dominical, pedi um tempo para pensar. Sabia, desde lá, que escrever uma crônica não seria difícil para mim, mas que escrever todos os domingos trazia o pressuposto do compromisso. Que essa atividade distribuiria, para muitos leitores, os meus pensamentos e ideias. E o fato disso ser em um jornal, aumentaria a responsabilidade. Pensei no Genilson Senche, meu antigo amigo e carismático empreendedor das décadas de 70 a 90, ainda no tempo da Revista Cinelândia, quando o conheci. Desde lá Genilson fora um homem comprometido com a notícia e com a informação precisa, e que por várias décadas deu a esta cidade o que de melhor ele conseguira fazer. Lamentei muito a sua precoce morte ocorrida no dia 07 de junho de 2001, ficando a sua esposa Ana Eliza Lemos Senche responsável pelas atividades, que há 19 anos tem provado sua competência como administradora e jornalista, apesar dos cataclismos econômicos e políticos. Sou grato à Folha da Região, um dos melhores dessa região, por ter aceito as minhas crônicas, que, neste dia, completa o seu centésimo número de publicação dominical. Por conseguinte, aceitei o convite, pois tinha para com todos muito respeito e admiração e, em especial, ao Fernando, por sua inteligência acadêmica demonstrada nas aulas que ministro no curso que ele está fazendo. Escrever é o meu encargo desde então. Em todos os sábados, pela manhã, eu tiro de 6 a 8 horas para pesquisar e escrever os temas que espontaneamente elejo, buscando dialogar com o universo da psicologia, em sintonia com as demandas psicossociais. Sou psicólogo clínico, além de professor e fundador do curso de psicologia na Faculdade da Fundação Educacional Araçatuba. Eu gosto de escrever e isso me dá muito prazer. Não, necessariamente, que eu tenha algo a dizer, que minhas frases sejam profundas, rasas ou surpreendentes, ou que sejam originais, compiladas ou relevantes. Nada disso. Escrevo por que considero, esse exercício, um jeito desafiador de ser. Aprendi que escrever exige humildade e atitude investigativa. Aprendi que cada palavra contém uma história e que sua etimologia remonta à organização do mundo. Que ela está ligada a uma estrutura gramatical ou semântica que forma o sistema comunicacional. Aprendi, ainda mais, a enxergar a palavra como uma célula, ou como um tijolo em uma determinada construção. E, essa é a atividade de quem escreve, a de procurar, investigar, descobrir e selecionar aquela que melhor oferece o devido sentido, ao que se pretende dizer ou escrever. Investigar a palavra, é sempre um processo de descobrimento. Descobre-se a história do mundo e das pessoas. E quando, em uma frase, a palavra revela o que se deseja, o que se nota é que ela, timidamente, abre outras conexões criativas, fazendo com que o escritor se sinta honrado pelo respeito concedido, pois ela consentiu tanto a continuidade da ideia quanto a formatação de novos enredos ao texto. Trabalhar com a palavra, para quem escreve, é manejar a genética do mundo, pois todos somos seres simbólicos que vivem e dependem dela. Merleau-Ponty (1996) afirma que "a palavra é um gesto linguístico que rompeu o silêncio primordial, o qual precisa ser reencontrado, sob o ruído das falas, se quisermos compreender o gesto que expressa e dá sentido ao próprio existir do ser humano". Mais importante que a palavra é a revelação constituída entre os afetos que organizam o corpo e oferece a palavra. Que o sentido mais puro do que se quer dizer não se encontra na palavra, mas sim sob o ruído das palavras, do qual o existir humano depende para a elaboração compreensiva do seu jeito de viver e de existir. Nesse aspecto, o silêncio do escritor, no processo criativo, compõe a tessitura da ideia que se formata na possível condição coerente do texto. Para tanto, escrever é um ato silencioso, reverencioso, onde o escritor se debruça sob as possibilidades de criação dos sentidos, propiciado pela palavra. Esta reverência ao silêncio, faz do não-dito, o lugar da palavra que não foi verbalizada, mas que está ali para ser desvelada pelo olhar interpretante do escritor. O silêncio, como categoria fundante da palavra e da linguagem, é a matéria significante por excelência e, nesse aspecto, "o silêncio é o real do discurso, ou seja, um continuum significante". O silêncio não é o vazio, o sem sentido; ao contrário, ele é o indício de uma totalidade significativa. Isto leva à compreensão do "vazio" da linguagem como horizonte e não como falta". Desse modo, o silêncio significa e re-significa outras formas de linguagem, pois o silêncio não é transparência, ele atua na passagem entre pensamento-palavra-coisa. Segundo Orlandi (1997) "O silêncio é sempre o lugar da palavra abortada pelo indizível, mas que está latente nos vãos do discurso, nos seus intervalos e pausas, no apelo da mudez por significados". Nesse enredo, conclui-se que "o silêncio, pode se fazer vida ou morte, alegria ou tristeza, parada ou isolamento, mas será infinitamente o lugar do mistério da palavra que não se fez disfarce e que, por total falta de tradução, permaneceu ausente, aberta a infinitos sentidos". Nesse tema, Augras (1986) ao descrever a criação das coisas no mundo por meio da palavra, fala dos deuses demiurgos, e destaca: "Antes da ação do demiurgo, existia apenas o caos. Nada existia, somente a imobilidade, o silêncio nas trevas, na noite". Esse é o poder da palavra, matéria prima do escritor que, sem manejá-la corretamente, nada tem a dizer. A palavra é, pois, a ação demiúrgica que não apenas cria as coisas, mas que a tudo empresta uma razão, formando assim o mundo em que vivemos. Escrever, para mim, é criar coisas, é inventar novos ângulos sobre o já percebido ou sentido. É dar ao leitor um novo modo de olhar. Não abusando, acredito que o mestre e o melhor de todos nós, o colunista Dr. Tito Damazo, concordará, parcialmente, com as minhas declarações sobre o ato/processo de escrever. E que ele mesmo, acredito, desfruta do prazer que a palavra, em seu processo criativo. Obrigado à Folha da Região pela oportunidade. Reconheço que esse exercício me faz melhor a cada semana. Que muito aprendo ao descobrir, na palavra, suas interseções. E, assim, continuo procurando, no silêncio, o conceito devido, pois o silêncio é sempre o lugar da palavra abortada pelo indizível, mas que está latente nos vãos do discurso, nos seus intervalos e pausas, no apelo da mudez por significados. Obrigado aos leitores e amigos que me prestigiam com seus comentários estimulantes.