10 de julho de 2026
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Crescem publicações sobre suicídio no Brasil durante a pandemia

Por Redação |
| Tempo de leitura: 7 min

Desde que se mudou para o mesmo terreno em que mora toda a família do marido, no interior do Paraná, Helena* (o nome foi trocado a pedido da entrevistada), de 23 anos, não conseguiu mais ser feliz. Longe de seus pais e dos irmãos, diz que detesta o lugar e que se sente sozinha.

O marido nunca foi "do tipo que para em casa", diz ela. "Recentemente descobri umas coisas dele que ainda fizeram tudo piorar." Na pandemia, é ela quem cuida sozinha dos dois filhos de quatro anos e da bebê de nove meses.

Para se distrair, Helena participa de um grupo no Facebook. O objetivo lá é encontrar e divulgar perfis de pessoas que já morreram. Na semana passada, diante do nome e da foto de uma mulher um pouco mais velha que ela e que cometera suicídio, Helena comentou: "Queria ter essa coragem".

"Tem horas que vem uma angústia. Dá vontade de sumir, de morrer, de se matar. Fazer alguma coisa para tirar isso de dentro. Meu marido tem espingarda, mas penso nos meus filhos. O menino é muito apegado a mim", diz.

Publicações como a de Helena engrossam um levantamento feito pelo ComunicaQueMuda (CQM), plataforma digital da agência nova/sb que tem como foco propor debates sobre temas considerados polêmicos. Este é o terceiro ano que o suicídio suscita pesquisa do CQM.

Por meio de menções no Twitter, no Instagram, no YouTube, no RSS e no Facebook, foi possível comparar que, enquanto em 2017 a principal conexão do tema era com o jogo "Baleia Azul", e, em 2018, com a série "13 Reasons Why", em maio passado os posts relacionados a suicídio foram provocados pelo isolamento social atual. "O tema, assim como a tristeza, começou a aumentar nas postagens dos internautas. Em 2017, o assunto ainda era tabu, mesmo com quase 800 mil vítimas por ano, um suicídio a cada 40 segundos no mundo, e outras 20 tentativas para cada caso", diz Bia Pereira, diretora da agência e coordenadora do CQM.

De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), em 2014, 10.631 pessoas cometeram suicídio no Brasil. A maioria é masculina: a cada dez suicídios, oito são de homens e dois, de mulheres. Para a OMS, 90% dos casos aqui e no mundo todo poderiam ter sido evitados.

Para obter os novos resultados, o CQM monitorou as redes brasileiras ao longo de 29 dias em maio de 2020 e contabilizou 103.923 menções ao tema. Dentro deste número, registrou aumento no número de depoimentos e relatos. De 6,3% em 2017, passaram para 23,5% em 2020.

"Isso mostra que as pessoas estão mais confortáveis em falar sobre como se sentem", diz a coordenadora. O número de notícias a respeito do suicídio, por sua vez, subiu de 7,5% para 42%, enquanto a frequência de piadas sobre o assunto diminuiu. Antes contabilizavam 34% das postagens, e agora são apenas 3%.

A pesquisa avaliou também as publicações que disseminam conteúdo positivo, como reflexões acerca da seriedade da depressão ou que incentivam a busca por ajuda. Enquanto em 2017 elas representavam 28,8% do total, em 2020 passaram para 63,5%.

"Esses comentários abrem uma porta para que essas pessoas compreendam que podem falar sobre como se sentem, que tem alguém para ouvi-las. Também são fundamentais para equilibrar o debate do tema nas redes, que é infestado por haters e desinformação", completa Pereira.

"Não tenho ninguém para conversar. Minha família mora muito longe, e não converso com os parentes do meu marido. Só tenho meus filhos mesmo, e não gosto de falar muito sobre mim porque as pessoas não entendem", conta Helena, que diz nunca ter cogitado fazer terapia.

"Suicídio tem a ver com um sofrimento insuportável que a pessoa acha que não vai acabar nunca. É preciso mostrar que é possível transformar essa esperança na morte em esperança de que a pessoa pode ser tratada, pode buscar outros caminhos, entender as coisas e reagir a elas", explica Karen Scavacini, psicóloga cofundadora do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio.

Qualquer pessoa pode pensar em suicídio em algum momento da vida, de acordo com a psicóloga, mas, para a maioria, é um pensamento que, assim como chega, vai embora. "Mas, quando a pessoa começa a pensar muito em morrer, não consegue afastar esses pensamentos e vê o suicídio como uma saída viável, aí é o momento de pedir ajuda."

Scavacini afirma que, ao se deparar com uma publicação como a de Helena, é preciso agir. No caso de desconhecidos, a melhor recomendação é utilizar as ferramentas de denúncia da plataforma onde o comentário foi postado. "Vão analisar e mandar mensagem sem que a pessoa saiba quem fez a denúncia", diz.

Se a publicação for de um amigo, ofereça ajuda falando de forma privada, sem que ele seja exposto.

"Estamos em uma época de muitas perdas, é algo que mexe com todos. Quanto mais estresse uma comunidade passa, mais afetada será sua saúde mental. E, quanto pior a saúde mental, maiores são as chances de o suicídio acontecer."

E, caso quem precise de ajuda seja você mesmo, Scavacini sugere a conversa com pessoas próximas e uma pesquisa por locais com atendimento gratuito online durante a quarentena.

"Tente também respirar fundo e fazer planos para, se possível, colocá-los em prática quando a pandemia acabar. Mas, mais do que tudo, seja atendido e avaliado por um profissional da área da saúde mental."

Psicólogo de Araçatuba fala sobre possíveis sinais e como identificá-los

O Psicólogo Clinico, de Araçatuba, Dario Rosa, afirma que todos os suicidas emitem sinais claros de suas intenções. “As pessoas não os reconhecem porque não são empáticas!”, diz. Com a emergência diária e a falta de comunicação entre os pares, Daria afirma que cada vez mais perdemos pessoas. “As vezes até alguns profissionais da saúde mental acabam deixando passar algum sinal que poderia ser facilmente identificado”, conta.

“Nós da saúde mental contamos apenas com as campanhas anuais que são o janeiro branco que visa a saúde mental e o setembro amarelo que é o mês de prevenção do suicídio. Mas, o buraco é mais embaixo”, declara Rosa.

Segundo ele, há muito preconceito ainda com os portadores de sofrimento psíquico. “Quando falam que são usuários dos CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), são taxados como loucos. Assim como o preconceito que existe quando qualquer pessoa fala que vai começar um processo terapêutico seja com o profissional da psicologia o da psiquiatria. Dito isso, pronto, está louca! E não é assim que funciona”, ressalta.

O profissional é enfático e diz “a saúde emocional é uma necessidade básica, guardada as devidas proporções que o cérebro humano incide até na saúde bucal! É uma necessidade premente a saúde mental, mas para isso, é necessário um aparelhamento mais abrangente dos órgãos públicos para que todas as pessoas possam serem atendidas a todo o tempo nas suas angustias”.

Rosa explica que quando acontece a morte física de um suicida, ele já morreu há muito tempo. Segundo ele, a culpa, o isolamento e a rejeição são fatores extremamente importantes para a morte social e a morte social é o primeiro estágio do suicídio. “Todo o suicida morre primeiro socialmente.

Eles começam a viver de forma vegetativa e passam a se enclausurar dentro dos seus labirintos emocionais. A dor causada por esses três fatores é extrema e se torna insuportável”. O psicólogo ressalta que é bastante comum as falas com conteúdo de finitudes geralmente proferidas. “Vontade de dormir para sempre, não faria falta para ninguém se eu não estivesse aqui, quero desaparecer e por aí segue esse discurso macabro sempre marcado com a morte de forma subliminar”, exemplifica.

Filmes, musicas, livros e series também são mensagens que o suicida nos deixam como pistas de suas reais intencionalidades. “Nesse período entre a morte social e a morte física, o suicida começa a planejar sua partida. Como já foi dito, o correto é cada indivíduo procurar um atendimento terapêutico para entender e arrumar as emoções”, ressalta.

Por fim, Rosa conclui “é importante a gente saber que essa questão é emocional não tem classes ou etnias, nem mesmo o estético pode ser tão reconfortante que lhes livre do sofrimento emocional”, finaliza.

Com informações Folhapress