A Quaresma é um período do ano para os cristãos, de quarenta dias, que antecede a principal celebração do cristianismo, a Páscoa. É sempre iniciada na Quarta-feira de Cinzas e tem o seu fim na denominada semana santa. Este ano, a Quaresma acontece de 26 de fevereiro a 09 de abril.
Em entrevista à Folha da Região, o padre Charles Borg, que é vigário-geral da Diocese de Araçatuba e pároco da Paróquia Santo Antônio de Pádua, fala sobre a importância desse período para os cristãos, seus significados e tradições.
Confira a entrevista na íntegra:
O que significa a Quaresma para o cristão?
Integra o organograma de toda empresa a realização periódica de balanço de atividade visando um melhor aproveitamento e rendimento. Na Igreja, o tempo da Quaresma corresponde a esta atividade de revisão, com o propósito de alcançar maior fidelidade à vocação de discípulo/missionário de Jesus Cristo.
Como podemos aproveitar a passagem deste período da melhor forma?
A Igreja propõe três exercícios básicos de revisão e aprimoramento: oração, que visa medir a comunhão com Deus e promover maior intimidade com Ele; jejum, que ajuda a refletir sobre o grau de influência de valores materiais e profanos na vida, com o subsequente propósito de correção e libertação; e, por fim, a caridade, que filtra a pureza do amor ao próximo, incentivando a progredir sempre mais na solidariedade.
No Brasil, este último exercício encontra motivação especial na Campanha da Fraternidade, que foca um tema específico para educar na caridade. Este ano o tema proposto é 'Fraternidade e vida, dom e compromisso'.
A Quaresma tinha uma tradição para as gerações passadas. Nossos avós tinham uma relação diferente com a data. O que mudou?
De fato, em tempos outros, o período da Quaresma era vivido com mais intensidade, modificava hábitos cotidianos. A crescente secularização e uma deficitária catequese contribuem para que o tempo da Quaresma perca seu salutar impacto. A abstinência de comer carne vermelha, por exemplo, passou a ser corriqueira na vida de muita gente com poder aquisitivo limitado. A falta de criatividade para encontrar formas mais impactantes de ajustar comportamentos incompatíveis com a vocação cristã ajuda a diminuir sensivelmente o destaque da Quaresma.
Estamos em uma sociedade mais dissociada dos dogmas e preceitos católicos?
Reconhece-se que a hegemonia do catolicismo encontra-se sensivelmente reduzida. Fatores vários contribuem para isso: a falta de uma formação continuada entre os católicos, que acaba favorecendo o avanço das igrejas neo pentecostais; a incapacidade de propor formas mais atualizadas de revisão e conversão; o apego excessivo a tradições conservadoras e, claro, o avanço e o atrativo de valores seculares e profanos.
Como o senhor, como padre, percebe estas mudanças na sociedade?
O Senhor Jesus Cristo conhece como ninguém a alma humana. Suas mensagens, portanto, atendem às mais profundas aspirações da humanidade. Em sua condição de seguidor de Jesus, o discípulo não se torna apenas um ser religioso, mas se faz, igualmente, um cidadão do bem.
Os valores cristãos são importantes para o mundo, depuram o relacionamento entre as pessoas, promovem a justiça, estimulam a solidariedade. E sobre cada cristão recai a responsabilidade de testemunhar esses valores, sob pena de apressar, por omissão, a desumanização da sociedade.
Como a Páscoa, no fim deste período, deve ser recebida entre os cristãos?
A ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo é o acontecimento de maior impacto em toda a história da humanidade. Ressurgindo, Jesus confirma que a vida não termina com a morte, que fazer o bem por onde andar compensa e, no final, é o que importa e o que fica. A ressurreição comprova que as maldades, representadas pela intriga, pela mentira e pela omissão, não têm a última palavra. Portanto, não devem impressionar nem atrofiar iniciativas humanitárias, mas, sim, devem ser combatidas com as armas da caridade, da justiça, da misericórdia. Todo tempo é tempo de fazer o bem!
Qual a relação do carnaval com a Quaresma?
Estritamente falando não há nenhuma relação entre os festejos carnavalescos e a Quaresma. A sequência no calendário é convencional, uma esperta licença para frivolidades antes dos rigores da Quaresma.