10 de julho de 2026
Araçatuba

Ana Laura de Almeida: A ordem natural das coisas

Por Redação |
| Tempo de leitura: 2 min

Dirigindo na noite escura e chuvosa rumo ao velório do pai de uma amiga, uma confusão de sentimentos se agita em mim. Nunca sei o que dizer em momentos tristes assim (e alguém sabe?), então geralmente não digo muito. Apenas ofereço meu abraço apertado e minha presença. Não sei se ajuda muito, mas tento ao menos não atrapalhar com frases feitas, sem sentido, como: ”Descansou”, “Esse é o destino de todos nós”, “Você precisa ser forte agora”. Frases que apenas provocam chacoalhar de cabeças, geralmente também dúbios, nem concordam, nem discordam, e um silêncio desconfortável.

Sei que ali dirigindo e fazendo o exercício de imaginar o sofrimento da minha amiga, essa dor me pareceu tão intensa, tão definitiva, que me veio o desejo de nunca passar por isso. Mas imediatamente percebi o problema crucial desse pensamento. Se eu jamais vier a sentir na minha existência a dor da perda de um pai ou de uma mãe, significa que eu parti primeiro. Porque a ordem natural do ciclo da vida é que eles partam antes, e nós, os filhos, sofremos.

Eis a verdade crua. Não podemos fugir eternamente da dor. Não sem subverter a ordem natural das coisas.

Nessa era hedonista em que vivemos, onde se prioriza o prazer afastando a dor a todo custo, não vivemos o luto de muitas coisas com medo dessa dor. E morremos antes. Porque viver é a alternância entre ferir-se e curar-se. Entre angústia e prazer. Dias bons e dias ruins. Não permitir-se sentir essas emoções é morrer em vida.

E quantos de nós, quando pais, não vive a ilusão de criar os filhos numa bolha, para que nunca sofram? E sonhando com o dom de retirar deles qualquer sofrimento com as mãos, mesmo que para isso fosse necessário transferi-lo para nós mesmos. Para que permaneçam sempre imunes ao que dói.

E falhamos grotescamente. Porque no ciclo natural da vida provavelmente morreremos antes. Nossos filhos herdarão a dor.

Melhor que saibam o que fazer com ela.

Ana Laura de Almeida é cirurgiã dentista