"As camélias do quilombo do Leblon/ Nas lapelas", cantaram Gilberto Gil e Caetano Veloso em uma recente composição da dupla, de 2015. Camélias nas lapelas se refere ao símbolo do movimento abolicionista, quando os antiescravagistas cariocas do século 19 colocavam as flores em seus paletós para demonstrar de que lado estavam.
Já o quilombo do Leblon tem uma história menos conhecida, apesar de seu papel na abolição da escravatura, em 13 de maio de 1888. É curioso o fato de o bairro que hoje tem o metro quadrado mais caro do Rio de Janeiro tenha abrigado, há 140 anos, um centro progressista como esse.
Esse quilombo, no entanto, era "diferente daquela modalidade mais conhecida pela sua índole guerreira e que atuava como foco de resistência. Abrigava escravos fugidos, mas também reuniões, discussões e ações sobre o fim da escravidão no Brasil.
Dentre os visitantes, figuravam Joaquim Nabuco, André Rebouças e Rui Barbosa", aponta o livro "Leblon", organizados pelos urbanistas Augusto Ivan de Freitas Pinheiro e sua mulher Eliane Canedo (Andrea Jakobsson Estúdio, R$ 120, 240 págs.).
"Eles escondiam escravos, compravam sua liberdade e discutiam a abolição. Chamava-se quilombo também pelas manifestações da cultura negra que estavam muito presentes", diz Augusto Ivan.
O quilombo era parte da Chácara das Camélias, a maior que existia no bairro no século 19. Hoje a chácara se transformou no Alto Leblon, uma área de casas e mansões que sobe a encosta do morro Dois Irmãos. Segundo Augusto, o quilombo funcionava onde agora está encravado o Clube Federal.
O dono da chácara era o comerciante português José de Seixas Magalhães. Ele fabricava e vendia malas e sacos de viagem no centro da cidade. Era avançado: suas malas eram feitas por máquinas e se tornaram famosas na Europa.
"Além de sua fábrica a vapor, o Seixas cultivava flores [em sua chácara] com o auxílio de escravos fugidos. Seixas ajudava os fugitivos e os escondia com a cumplicidade dos principais abolicionistas da capital do Império, muitos deles membros proeminentes da Confederação Abolicionista", conta Eduardo Silva no texto "As Camélias do Leblon e a Abolição da Escravatura" (site da Fundação Casa Ruy Barbosa).
"O imigrante Seixas era um homem muito bem relacionado", continua Silva. "Além da cumplicidade que tinha com os grupos abolicionistas do Rio, contava com a proteção da própria princesa Isabel. Pelo menos o homem fornecia suas camélias, em bases regulares, ao Palácio das Laranjeiras, então residência da princesa e hoje sede do governo do Estado. As camélias do Leblon enfeitavam não apenas a mesa de trabalho da princesa, como ainda sua capela particular. Folhapress