Esqueça Cristo Redentor ou Pão de Açúcar. Deixe de lado a zona sul, a imagem dos morros refletindo na baía de Guanabara. Se vire mais ao norte, para a região central do Rio de Janeiro.
É ali onde mora a história da segunda capital do país, e um setor do turismo vem tentando mudar a forma como ela é contada. Já são diversos "tours" que circulam a pé por lá e desenterram, quase literalmente, a trajetória e herança dos africanos que por ali passaram.
Eles se realizam a apenas algumas ruas "para dentro" do famoso Museu do Amanhã, na área portuária, na chamada Pequena África. O nome vem da grande quantidade de negros libertos que, com o fim da escravidão, se instalaram no local, onde já existia uma comunidade africana.
Mas não é qualquer um que pode contar essa história, diz o guia de turismo Well Rodrigues, "negro, gay e periférico com muito orgulho", enquanto anda pelas ruelas de pedra.
"Me incomoda quando pessoas usam esse lugar apenas com interesse comercial, um guia alemão fazendo esse tour não faz sentido."
Ele e seus colegas da agência Rio by Foot criaram o roteiro –batizado de Carnaval, Samba e Resistência– há dois anos. Só 3 dos 15 guias da empresa levam os turistas nesse trajeto, por um motivo simples: só eles são negros.
É o mesmo sentimento da guia Damiana Florêncios, da Florêncios Turismo.
"A gente consegue passar além da história. Consegue passar a memória, a vivência, as dores, a invisibilidade desde criança", afirma ela.
"Nos livros didáticos, a nossa história parou na abolição da escravatura. Saiu o negro, entrou o imigrante e construiu o Brasil", afirma.
A sensação de pertencimento faz Well, nascido na favela Cidade de Deus, falar com os turistas na primeira pessoa. "Simplesmente fomos soltos, sem nenhuma política de reparação", conta ao chegar ao Largo da Prainha, onde funcionava o mercado de escravos a partir da década de 1770.
Há ali hoje uma estátua da bailarina negra Mercedes Batista (1921-2014), figura importantíssima para a difusão da cultura afro no Brasil, naquela época criminalizada como vagabundagem. Em 1963, inventou a comissão de frente nos desfiles de escola de samba.
Os percursos variam de tour para tour, mas, em sua maioria, passam por alguns pontos principais. O Cais do Valongo, por exemplo, é parada obrigatória, por ter sido o maior porto de entrada de escravizados da América Latina no início do século 19.
Foi considerado patrimônio cultural da humanidade pela Unesco em 2017, mas corre o risco de perder o título pela falta de investimentos. Um prometido museu para explicar a importância do lugar até hoje não existe.
A alguns metros dali, o enorme (não em tamanho, mas em número de corpos) Cemitério dos Pretos Novos abriga cerca de 50 mil ossadas de africanos jovens recém-chegados que morriam logo após a viagem nos navios.
Esse local ficou por mais de 160 anos escondido, e só foi descoberto em 1996 quando uma família resolveu fazer uma obra em seu quintal.
Descobriu os fragmentos de ossos, mobilizou arqueólogos e resolveu, quase dez anos depois, criar o Instituto Pretos Novos (IPN), que recebe turistas e faz o tour para escolas e turistas até hoje.
Mas também não é qualquer um que se interessa por essa história.
"Para mim o maior cemitério ainda é o mar, para onde foram muitos africanos de que nem sabemos. E é triste ver que o brasileiro não conhece essa história, a maioria dos que vêm aqui são estrangeiros", diz Rafaelle do Anjos, que tinha 11 anos quando sua mãe fez a obra no jardim.
ALGUNS TOURS
Instituto Pretos Novos (IPN)
Quando: Com reserva, de segunda a sábado
Quanto: R$30
Contatos: (21) 2516-7089 e www.pretosnovos.com.br
Casa da Tia Ciata (centro de cultura)
Quando: Com reserva
Quanto: R$ 30
Contatos: (21) 96780-1710 e www.tiaciata.org.br
Rio by Foot
Quando: Todo sábado, às 14h15
Quanto: Contribuição voluntária
Contatos: (21) 97001-8590 e contact@riobyfoot.com
Alma Carioca Turismo
e Educação
Quando: Toda sexta
Quanto: A partir de R$ 50
Contatos: (21) 99889-4467 e almacariocaturismo@gmail.com
Florêncios Turismo
Quando: Com reserva
Quanto: R$ 60
Contatos: (21) 99366-0938 e damiana@florenciostour.com.br
Etnias Turismo e Cultura
Quando: Com reserva
Quanto: A partir de R$ 60
Contatos: (21) 96666-7636 e contato@etniasturismo.com.br