Minha casa é minimalista. Não apenas por opção, mas muito também por necessidade e praticidade, que só os alérgicos compreendem. O fato é que tenho poucos móveis, nenhum tapete, quase nenhum bibelô ou enfeite, e as paredes são inteiramente nuas, exceto por um único quadro. Nesse quadro não há nenhuma imagem, apenas um verso atribuído ao poeta russo Vladimir Maiakovski: “Ainda que seja noite, o Sol existe”.
Lido pela primeira vez no início da adolescência, o poema, mas principalmente esse verso, norteia minha vida. Pessoas se norteiam por versículos da Bíblia, por ditados populares, por frases de efeito proferidas pelos pais, ou por celebridades, ou atualmente por algum coach. Eu me norteio por esse simples verso. Então, até hoje, quando os dias são mais difíceis (e quem não os têm?), quando faltam forças, quando a esperança ameaça bater asas, é ele que me conforta.
Porque com o passar dos anos algumas verdades vão saltando aos olhos. Uma delas é justamente essa: por mais que tudo pareça definitivamente ruim, acabado e escuro, isso não nega o fato de que o sol continua a brilhar além dessa escuridão. Ele pode estar momentaneamente longe dos olhos, mas ainda há a possibilidade de voltar a sentir seu calor e ver sua luz, simplesmente porque ele ainda existe.
Outra verdade que se desvenda com a maturidade: aprendemos a escolher muito bem nossas batalhas. O que chamam de sabedoria eu na verdade muitas vezes penso que é simplesmente cansaço adquirido na nossa caminhada. Se a batalha em questão não nos convence, se vai exigir de nós despender muita energia, e, se por experiência própria já sabemos qual pode ser o seu desfecho e esse não nos atrai, então a preguiça nos invade e desertamos descaradamente.
E guardamos então toda nossa energia, estratégia e foco para aquela batalha que nos é vital. E então verão do que somos capazes. Porque queremos simplesmente o sol.
Ana Laura de Almeida é cirurgiã dentista