A edição desta terça-feira (29) da Folha da Região deu destaque à passagem do Dia do Livro. A efeméride joga luz para a importância desta plataforma (física ou digital), que no passar dos últimos séculos se transformou em mecanismo eficiente de diversão e transmissão de conhecimento.
A data também ajuda a provocar a discussão sobre a relação ainda distante que o Brasil ainda tem com o próprio livro. A estimativa é que 44% dos brasileiros sejam não leitores, o que significa que não leram nenhum livro nos últimos três meses, de acordo com a última pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro.
O livro ainda é um objeto de veneração para muitos, mas de uso para poucos. Seja pela falta de costume cultural ou pela dificuldade em consumir (entender) o conteúdo das obras, o brasileiro ainda abraçou o livro como um ‘amigo’ ou ‘professor’ itinerário.
A questão da cultura da leitura tem muito a ver com este distanciamento técnico. Um povo não tem como gostar daquilo que não entende. E para que possa consumir e entender os textos, o cidadão, desde pequeno, tem que se exposto a um processo de alfabetização que vá além do ensinar a escrever e a ler. Tem que ler e entender.
Uma das maiores pensadoras mundiais contemporâneas sobre o processo de alfabetização é a mineira Magda Soares. Ela, que foi além dos gabinetes da academia e levou seu amor ao ensino para as escolas de seu Estado defende que a biblioteca tem que ser o pilar principal das unidades de ensino. Lá, as crianças passam a ter contato com os livros que irão ampliar seus conhecimentos.
Magda, que em 2017 venceu o prêmio na categoria principal do Prêmio Jabuti – desbancando grandes cronistas e romancistas - com a obra “Alfabetização: a questão dos métodos”, levanta a bandeira sobre o quanto seria melhor para o Brasil dar mais ênfase à aprendizagem.
Ela, que é professora emérita da Faculdade de Educação da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) defende que a introdução da criança no mundo da escrita vai muito além do aprender a ler e a escrever oficializado atualmente. Para que possamos entender melhor, Magda explica que a aprendizagem da escrita pode ser condensada em dois grupos abrangentes: a alfabetização – a aprendizagem do sistema alfabético de escrita e das normas ortográficas – e o letramento – as habilidades de usar esse sistema para ler textos e produzir textos, e para inserir-se plenamente em sociedades grafocêntricas.
Se a criança apenas aprender a escrever será considerada alfabetizada, mas não estará necessariamente hábil para ler e entender. E este pode ser a grande explicação para que o mercado editorial no Brasil ainda viva bem abaixo de sua capacidade.
Por não preparar as gerações para a leitura qualificada, o Brasil está em penúltimo lugar em ranking de qualidade na Educação de acordo com os dados do Programa Internacional de Avaliação dos Alunos (Pisa), que é uma avaliação internacional do nível educacional coordenada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, com vista a melhorar as políticas e resultados educacionais.
O Brasil tem que ensinar a ler e a entender um texto. Assim, os 44% dos brasileiros que nunca leram um livro sequer poderão ser introduzidos ao mundo do consumo literário. Enquanto o mundo discute mudanças do livro físico para o digital, o país ainda precisa ensinar a ler com qualidade.