A edição desta sexta-feira (25) da Folha da Região traz como destaque dois casos em que crianças foram encontradas em situação de vulnerabilidade, por abandono temporário. Mesmo que as vítimas estivessem supostamente seguras em suas casas, as autoridades do assunto revolveram intervir para garantir a integridade física das crianças. Em uma das situações, os pais chegaram a dormir na cadeia.
No caso mais recente, ocorrido na tarde desta quinta-feira (24), em Araçatuba, o GOE (Grupo de Operações Especiais) da Polícia Civil encontrou uma criança de três anos e oito meses abandonada em uma casa no bairro São Vicente, em Araçatuba. A mãe da criança foi localizada trabalhando em um shopping da cidade e conduzida à delegacia.
Na noite de quarta-feira (23), os pais estavam na igreja e deixaram cinco crianças em casa, no centro de Birigui. Foram presos e liberados horas depois.
A reportagem da Folha da Região acompanhou de perto o caso ocorrido em Araçatuba. E foi possível ver o quanto o abandono é destrutivo para o emocional de uma criança.
A menina de apenas 3 anos chegou a falar para os policiais que estava feliz com a presença deles, que haviam acabado de arrombar a porta. Eufórica em ter uma companhia, a criancinha, no alto de sua inocência, quis mostrar aos agentes da lei o seu caderninho com seus desenhos.
Foi um flagrante de carência desta menina que comoveu até os mais experientes conselheiros tutelares e policiais presentes. Não foi possível, segundo relato deles à reportagem, conter a emoção em ver um ser tão frágil, tão sedento por atenção.
Não se pode deixar de mencionar o perigo em se deixar uma criança de apenas três anos sozinha. Também é preciso destacar que durante as buscas, a polícia encontrou drogas em um quarto que tinha um berço de bebê.
No caso de Birigui, as crianças, com idades entre 2 a 9 anos, também estavam privadas da segurança física que apenas um adulto pode dar. E por estarem sozinhas, passíveis de todos os medos típicos da infância, também estiveram expostas – não se sabe por quantos dias isso acontecera – a traumas e carências que serão definitivos em suas personalidades futuras.
Deixá-las desamparadas física, emocional e psicologicamente é um crime de efeito duradouro. Estudo publicado em 2015, coordenado pelo professor Diogo Lara, da Faculdade de Biociências da PUC/RS, mostra que basta um pouco de abuso emocional em casa durante a infância (ofensas, humilhações e abandonos) para que a pessoa deixe de se sentir saudável. As chances de tentativa de suicídio aumentam 17 vezes quando esse tipo de abuso ocorre em um nível grave, o que acontece em cerca de 15% da população. Além do abuso, a negligência emocional (falta de carinho, de amor, valorização) também pode trazer efeitos devastadores.
Deixar crianças abandonadas, como nestes casos, não as deixam apenas vulneráveis fisicamente. As cicatrizes na alma, pelo abuso emocional, serão duradouras.