09 de julho de 2026
Vida

Os sons do amor - Por Jean Oliveira

Por Redação |
| Tempo de leitura: 2 min

Sara tem raiva de quem fala com ela. Não que seja antissocial. Mas com o pássaro do tempo e enquanto evoluía nas aulas de piano ela foi desenvolvendo a capacidade de permanecer em silêncio. Fala o necessário. Sua melhor diversão é andar pelas ruas de sua cidade ouvindo a sinfonia da rua. Sem muita métrica e com ritmo próprio, a vida pulsa em seu ouvido. A buzina, a mulher chamando pelo filho, o silêncio dos namorados abraçados invade e faz vibrar o martelo, a bigorna e todo seu aparelho auditivo.

A moça de cabelos curtos, olhos sempre pintados discretamente com sombra preta e lábios finos, gosta de entregar seus sentidos à música do mundo como ele é. Cada dia com sua batida, cada sentimento com seu arranjo próprio. Apenas as coisas como são. E ela ouve a tudo com a atenção de uma criança.

Sentada no banco da praça, ela escuta o que não é dito pelas pessoas. A solidão do casal que anda de mãos dadas sem muita convicção é um fado derramado de lamentações. A dor da moça com sacolas de mercado e cabeça baixa soam para ela como um tango arrastado. Os passos apressados do rapaz com flores nas mãos é um samba alegre, de fazer qualquer um dançar até o amanhecer.

Sara ouve as coisas. O cheiro do feijão novo tem para ela a cadência de baião sorridente. E por isso ele casa bem com o compasso do arroz no prato. Tudo é música.
Na noite passada, com o céu sem lua e estrelas apagadas por sonoras nuvens, Sara ficou deitada em sua cama ouvindo a sinfonia dos galhos das árvores, dos passos dos amantes e operários nas calçadas, e o belo silêncio do vento frio que entrava pelas frestas da porta e da janela. Ela fechou os olhos e foi curtindo cada acorde. Assim, adormeceu sob as mais belas cantigas de amor que apenas o inaudível pode cantarolar.

Depois desta noite, acordou com uma linda serenata de paz em seu jovem coração. Em passos rítmicos, atravessou o bairro, subiu as escadas da galeria de butiques. Entrou na loja de sapatos masculinos e sem dizer uma só palavra beijou a boca do seu ex-namorado, a quem derramava óperas de saudade.

Não foi preciso dizer nada. Ela, como ninguém, sabe que a vida não segue uma partitura. Não há uma pauta rígida. A única clave permitida é do sol que ilumina a todos. E para o amor, todas as oitavas são embaralhadas. Todas as linhas e espaços se confundem.

O beijo foi assistido por uma plateia silenciosa e retribuído em um dueto perfeito. Sara tem raiva de quem fala com ela porque ela sabe que o que é essencial é inexprimível.
Jean Oliveira é jornalista, bacharel em Turismo e funcionário público municipal