Infelizmente, este texto não é sobre a canção de rock do The Who “Behind blue eyes” (Por trás de olhos azuis), escrita por Pete Townshend e lançada pela banda em 1971 no álbum “Who’s Next”. Me identifico com a canção por conta de experiências vividas, principalmente com o verso “ninguém sabe o que é ser triste por trás de olhos azuis”. Dissertarei com sutileza para não gerar ambiguidades, pois não se trata do duvidoso “preconceito inverso”.
Nasci com olhos azuis e, até hoje, muita gente me aborda como se isso fosse um privilégio, como se eu não pudesse ser triste, sofrer ou me irritar por ser um homem branco de olhos azuis. Quando era criança, exageravam em relação a isso e criavam grandes expectativas em relação ao meu futuro por conta da cor dos meus olhos. “Vai ser pegador”, “vai fazer sucesso”, “o que será que esses olhos azuis farão?”
Sempre vi, mas nunca senti em qualquer hipótese o preconceito que negros sofrem no Brasil, pelo contrário: pensam que sou filho de algum fazendeiro rico por ser um homem branco de olhos azuis. Nada disso. Nasci e continuo pobre; cresci com os meus pais batalhando para educar a mim e a meus irmãos. Tenho orgulho de ser filho de um mestre de obras e de uma professora.
Na minha turma eu tinha “olhos coloridos”, como se as outras cores não fossem cores. Alguns ainda sugerem que eu deveria ser repórter de televisão por conta dos olhos azuis …. Ignorei isso e fui para a universidade dar aulas, minha real paixão. Aprendi com a biologia que as chances de nascerem olhos azuis são menores. Entretanto, o que tem de especial nisso? Os filhos que eu e minha esposa ainda nem tivemos já estão sendo cobrados pelos 25% de chances de terem olhos azuis.
Vivo em Araçatuba há 18 anos e passo por isso quase todos os dias: perguntam se sou daqui, de qual família, como se fosse um gringo ou o bendito filho de fazendeiro. Sempre me opus e vejo preconceito nisso: exaltam-se brancos de olhos azuis em um país onde negros sofrem cotidianamente. Eu me retraio quando vejo notícias como a do jovem negro amarrado nu e chicoteado por seguranças brancos em um supermercado de São Paulo. Sinto vergonha por ser “bem tratado” por conta dos meus traços étnicos.
Fernando Verga é jornalista mestre em comunicação