08 de julho de 2026
Editorial

Contra os trotes - Editorial

Por Redação |
| Tempo de leitura: 3 min

Há 30 anos, era comum as crianças passarem trotes em números aleatórios. Discavam e faziam as brincadeiras com quem quer que atendesse ao telefone. Brincadeiras outrora inofensivas, ganham tom de grandes causadoras de problemas com o aumento da população, o crescimento das cidades, aumento da frota de veículos em circulação, dentre outros fatores.
A Câmara de Araçatuba votou, na última segunda-feira (19), projeto de lei que faz com que seja multada a conduta acima descrita quando esta acionar serviços de urgência e emergência, como Samu, Bombeiros, Resgate, Polícia, dentre outros, de maneira mentirosa. Impressionante que ainda existam pessoas que se prezam a esse tipo de atitude em pleno século XXI!
Atualmente, há fontes de informação mais seguras e disseminadas do que há 30 anos fazendo com que todas as pessoas tenham conhecimento do desserviço prestado pela conduta de fazer os chamados “trotes” a estes órgãos que, diuturnamente, trabalham de maneira incansável para ajudar a manter a ordem, a segurança e a saúde da população, especialmente quando há ocorrência de acidentes ou situações mais graves e que demandem atendimento especializado.
Araçatuba possuía, até o ano passado, quatro ambulâncias de atendimento no Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e a prefeitura anunciava a licitação de mais unidades para atender à população. Apesar de não ser o único serviço móvel de atendimento de urgências e emergências, o Samu é, juntamente com o resgate, de extrema importância à proteção da população da cidade que beira 200 mil habitantes.
Cada deslocamento conta com, pelo menos, um motorista, um socorrista e um médico. Essa estrutura tem um custo, e alto, e deve ser utilizada somente em casos importantes, onde há necessidade, não podendo ser alvo da ação de pessoas imaturas ou despreparadas que fazem brincadeira com um trabalho sério, que pode custar vidas, pois a central de regulação tem que avaliar a gravidade dos casos e a necessidade e priorizar de acordo com a urgência.
Ao solicitar deslocamento de ambulâncias, ou de qualquer outro serviço público de maneira irresponsável, o munícipe tira de outro a oportunidade de ser atendido mais prontamente e isso deve ser rastreado e punido. E é aí que entra o PL 58/2019, de autoria do vereador Gilberto Mantovani (PL), o Batata, punindo com multa e ressarcimento dos gastos tidos com a infração, dentre eles, custos pelo atendimento não realizado, pela identificação das chamadas e, também, do deslocamento da equipe até o local. Há, ainda, a possibilidade de ser responsabilizado civil e criminalmente pela falsa comunicação e pelas consequências que esta possa vir a causar. Passar trote em serviço telefônico de emergência é assumir o risco de desviar o foco para um atendimento real que pode ter consequências desastrosas.
O projeto seria inócuo não houvesse a absoluta certeza de que os trotes ainda ocorrem. Atualmente, com tantas tecnologias, não dá para imaginar que o autor desta brincadeira extremamente inconveniente ficará impune. Mais difícil ainda é acreditar que se chegou ao absurdo de ter a criação de uma lei municipal na tentativa de coibir algo que deveria ser debatido, principalmente, em casa, pois é questão de cidadania. Cabe aos pais, em primeiro lugar, orientar seus filhos sobre a importância destes serviços e, ainda, sobre a necessidade de que somente sejam acionados em momentos de necessidade. Por outro lado, quando não se tem o trabalho com a conscientização, forma-se adultos que acreditam que tais brincadeiras não têm consequências e agem como se crianças fossem, discando e mentindo. Agora é o momento de realizar campanhas, alertando sobre o problema e suas consequências.