Por que a gente acha normal incêndios e destruições na Ilha Comprida ( Rio Paraná), entre Castilho e Três Lagoas? Quase todos os anos é assim. Mas em alguns anos, não. E talvez, por isso mesmo, os intervalos maiores são mais catastróficos porque a fauna e a flora tiveram mais tempo para se recuperarem. Até quando vamos admitir as mortes dos animais queimados, por causas até hoje desconhecidas desses incêndios? A quem interessa essa destruição? Cenas desesperadas de macacos, cervos pantaneiros e uma infinidade de outros bichos, tentando atravessar o rio. Alguns conseguem, mas a maioria morre cercada pelas labaredas de fogo e queimada, com lento sofrimento e longa agonia. Um dos motivos é a falta de indignação e a passividade da população que vive no entorno. Os investidores privados e o Governo que incentivam o turismo em ambas as margens do Paranazão, deveriam se unir para transformar a ilha num ambiente de exploração turística sustentável, um safari, com as unidades de fiscalização e os sistemas que se imaginam serem necessários para preservar e fiscalizar o local. Dizer que por ser uma ilha, não é possível ter acesso, é uma vergonha. Não tem, mas deveria ter. As balsas desapareceram porque acabaram se envolvendo em transportes ilegais. Mas em pleno século 21, isso não deve ser motivo para não se pensar numa solução inteligente para preservar e tornar-se sustentável toda a ilha. As justificativas das autoridades responsáveis, divulgadas pela mídia nacional, foram estarrecedoras. Primeiro que no Bom dia São Paulo de terça-feira, 48 horas depois de iniciado o incêndio, o âncora da Globo disse que desconhecia completamente a existência daquela ilha. As autoridades ambientais foram do “a gente demorou para ficar sabendo”, até a imprecisão para informar se houve ou não controle total dos focos de incêndio. Mas sem dúvida a desculpa mais cômica foi: “a ilha é desabitada e de difícil acesso, sem água disponível para combater os incêndios”. Deve estar na Amazônia, então. Faça-me o favor!! Bem, para mim, com 40 anos de jornalismo está faltando repórter. Está faltando investigar melhor, informar direito. Está faltando jornalismo para mostrar que os responsáveis precisam simplesmente assumir suas funções. A ilha Comprida foi desabitada por causa das enchentes anuais. Em 1982 foi a maior delas. As dificuldades de resgate e a necessidade de evitar a repetição desse problema fez a Cesp, com anuência do Ibama, transformar a Ilha, com 18 quilômetros de extensão, numa reserva legal ambiental. Hoje a responsabilidade é da Cesp/Votorantim, concessionárias da usina de Porto Primavera.
Antônio José do Carmo é jornalista