As crianças vão às escolas. As escolas querem envolver as famílias. Até aí, nenhum problema, não fosse pela queda do sistema patriarcal familiar e pela grande ausência de um dos pais na vida das crianças de um modo geral.
Não se fala aqui apenas de ausência do lar, aquela que ocorre quando se tem pais separados, por exemplo. Mas é hora de trazer uma reflexão, singela, sobre o que as datas comemorativas, em especial o Dia das Mães e o Dia dos Pais, este último celebrado recentemente, representam para as crianças que ali estão se “apresentando” para que alguém fotografe e filme, pois é para isso que elas se apresentam. E tome dinheiro para que a homenagem ocorra porque filho que é filho, dá presente para os pais, feito na escola.
O que mais me motiva nesta pequena missiva é o fato de que, passado o Dia dos Pais no último domingo, ao abrir meu Facebook, deparei-me com um depoimento de uma mãe que perdeu seu companheiro quando seu pequeno ainda estava em seu útero. Com o fruto de seu amor na barriga, esta mulher, que tem se demonstrado uma fortaleza, chorou a perda do marido e hoje, carrega nos braços muitas lembranças. Em seu desabafo, ela coloca que o filho estava perdido, pois nunca conheceu o pai, em sua apresentação de Dia dos Pais que a escola programou para ocorrer na segunda-feira, após a data comemorativa.
As famílias mudaram. Hoje, segundo dados do IBGE, 28,9 milhões de família, número que dobrou desde 2001, são chefiadas por mulheres, o que já representa mais de 40% do total. O modelo patriarcal vem despencando ano a ano e passou de 72,6% em 2001, para 59,5% em 2015. Assim, as escolas precisam estar mais atentas ao movimento comemorativo inserido no calendário.
Já que a família não é mais tradicional, porque têm que ser assim as comemorações? Há famílias com duas mães, com dois pais, netos que são criados pelos avós, por um tio ou tia. São inúmeros os novos modelos familiares e, como nada na vida é eterno, é provável que, em alguns anos, surjam outros modelos. O que se eterniza é somente o sofrimento na mente de uma criança que, em muitos casos, não sabe nem o que está acontecendo e não consegue compreender porquê ela não tem e o amiguinho sim. Vale a pena o trauma para satisfazer um modelo arcaico?
Ana Cenci é jornalista