O primeiro requisito para uma mulher buscar sua própria felicidade deveria ser trabalhar seu sentimento de culpa. Porque esse é o que mais nos corrói, nos paralisa, nos rouba a chance de tomar decisões melhores para nós mesmas. Sentimos uma culpa sufocante diariamente, inclusive por coisas que não estão ao nosso alcance, mas que na nossa visão temos obrigação de fazer, ser e acontecer. É o que esperam de nós. E inevitavelmente falhamos. E assim acumulamos mais uma culpa para nossa coleção infindável.
As mulheres comprovadamente trabalham mais que os homens, têm jornada dupla, tripla, ganham menos, e ainda precisam lutar com unhas e dentes pelos seus direitos básicos. Estudo recente comprova que em 15 anos o número de famílias chefiadas por mulheres mais que dobrou, num crescimento de cerca de 105%. Esse estudo avalia o número de mulheres que paga as contas de casa, mesmo em casos onde há um cônjuge. Isso não significa que essas mulheres realmente chefiem seus lares. Em muitos casos, elas pagam as contas, mas quem toma as decisões é o marido. Reflexos de uma sociedade patriarcal.
Então, a mulher faz muito, mas se cobra ainda mais. Esse é o nosso maior mal. Porque nunca é o suficiente. A sensação de estar em falta é constante. Toda mulher bem sucedida profissionalmente já ouviu uma vez na vida: “Uau! Você chegou até aqui! Então com certeza teve que abrir mão de muitas coisas importantes!” Mesmo que a pessoa não saiba, a mensagem é: “Você é muito boa no que faz, pena que, para isso, com certeza, falhou nos seus outros papéis”. Temos culpa até pelo nosso sucesso.
Ana Laura de Almeida é cirurgiã dentista