09 de julho de 2026
Entretenimento

A história do cinema nacional e seus trunfos - parte 1

Por Redação |
| Tempo de leitura: 7 min

Desde “Saída dos Trabalhadores da Fábrica Lumière”, primeiro filme transmitido no Brasil, no Rio de Janeiro, em 1896, muita coisa mudou. Naquela época, o país tinha recentemente abolido a escravatura, era uma república de pouco mais de cinco anos de idade e a capital ainda era o Rio - no já inexistente território da Guanabara. Além disso, nesses 123 anos, muita coisa também mudou no cinema nacional. A película de autoria dos irmãos Auguste Marie Louis Nicholas Lumière e Louis Jean Lumière, que estreou na França um ano antes havia sido apenas a primeira de várias que viriam a fazer sucesso em terras tupiniquins. Mas este foi apenas o primeiro passo.

No ano seguinte, em 1897, por incentivo de uma dupla de irmãos italianos, é construída a primeira sala de cinema do país, na capital federal. Os mesmos irmãos, também, são considerados os primeiros cineastas do Brasil, já que, no ano seguinte, realizaram filmagens da Baía de Guanabara. Já as primeiras filmagens de São Paulo aconteceram em 1899, e sua primeira sala de cinema só foi inaugurada no começo do século XX.

Hoje e amanhã iremos contar sobre a história do cinema nacional. Hoje, iremos até a segunda crise do cinema, que aconteceu com o fim da ditadura. A partir de amanhã, será contada a história a partir desta crise até os dias atuais. Aproveitem!

A ORIGEM DO CINEMA NACIONAL

No final do século XIX já foi dito que se foram feitas as primeiras gravações da então capital federal, mas a primeira película exclusivamente nacional foi a ficcão "Os Estranguladores", de autoria do luso-brasileiro António Leal e lançado em 1908 (antes disso os cinemas do país apenas transmitiam obras estrangeiras). Com apenas 40 minutos de duração, porém, a película não pôde ter sido considerada o primeiro longa-metragem da história do cinema nacional. Este título fica com "O Crime dos Banhados", de 1914 e criado pelo também português Francisco Santos. Este que, desta vez, contava com mais de duas horas de trama.

A PRIMEIRA CRISE

Com o fim da Primeira Guerra Mundial, que aconteceu entre os anos de 1914 e 1918, aconteceu a primeira crise do cinema brasileiro, que foi dominado, durante este dado período, apenas por produções americanas, do cinema hollywoodiano, que acabou enfraquecendo a indústria cinematográfica nacional. As salas de cinema continuaram cheias, o público continuou prestigiando o que, na época, era ainda uma modernidade, mas a produção de películas nacionais ficou estagnada por mais de dez anos, gerando, assim, um lucro quase nulo para as empresas de produções brasileiras.

Mas a má fase não se manteve por muito tempo. As décadas de 20 e 30 foram gloriosas para o cinema nacional. Surgem na época três publicações que ficariam famosas por abordarem o universo das películas. As revistas "Para Todos", "Cinearte" e "Selecta" contavam com conteúdo como críticas, novidades, notícias internacionais da área e muito mais.

A CINÉDIA

Fundada em 15 de março do ano de 1930 pelo jornalista, produtor e cineasta Adhemar Gonzaga, a Cinédia foi o que é considerado até hoje como o primeiro grande estúdio cinematográfico bem sucedido do país. Surgido como uma tentativa de defesa da existência de uma cinematografia nacional de qualidade, que na época era dominada pelas revistas acima citadas, a empresa buscava dar notoriedade às obras nacionais, além de tentar manter uma sequência no que diz respeito às produções além da estabilidade do cinema brasileiro. Para obter o sucesso esperado, a empresa foi atrás de basear os seus processos e técnicas nos melhores estúdios norte-americanos, além de modernizar os seus equipamentos e estratégias de comercialização. Contando também com a chegada dos melhores profissionais e artistas que estavam em atividade no país, não deu outra: a Cinédia foi um verdadeiro fenômeno.

As películas mais notáveis que estrearam na época foram "A Voz do Carnaval" (1933), de Ademar Gonzaga e Humberto Mauro; “Limite” (1931), de Mario Peixoto e “Ganga Bruta” (1933) de Humberto Mauro.

AS CHANCHADAS E A ATLÂNTICA NA DÉCADA DE 40

Com o surgimento da Atlântida Cinematográfica, fundada em setembro de 1941, pelos já cineastas Moacir Fenelon e José Carlos Burle, surgiu, com ela, um estilo de cinema que era caracterizado pela comédia de baixo orçamento, que passaria a ser conhecido como "chanchada". Apesar de beber da fonte das comédias norte-americanas, desde suas piadas até os trejeitos dos personagens, passaram a ser adicionados, com o tempo, temas do cotidiano do brasileiro, como as piadas cariocas e o famoso "jeitinho brasileiro", com seu jeito de agir e se comportar. O resultado não poderia ter sido outro: produções genuinamente brasileiras que, por conta de seu apelo muito grande com o público, foram capazes de lotar as salas de cinema por um longo período. Nesta época se popularizaram os atores Grande Otelo e Anselmo Duarte. Os grandes sucessos da época foram “Moleque Tião” (1941), “Tristezas Não Pagam Dívidas” (1944) e “Carnaval no fogo” (1949).

Mas com o passar dos anos a fórmula foi se saturando até que, pouco mais de uma década depois, os brasileiros não se interessavam tanto pelas chanchadas quanto no começo da década de 40.

VERA CRUZ E CINEMA NOVO

Criada em 1949 e popularizado pelos filmes do saudoso Mazzaropi, a Vera Cruz Produções foi um marco do cinema nacional por apresentar uma qualidade até então ímpar para as películas nacionais. Sempre baseadas na popular indústria de Hollywood, o aumento na qualidade das obras foi tanto que "O Cangaceiro", de 1953, foi o primeiro filme nacional a ganhar o tão cobiçado prêmio de melhor filme no Festival de Cannes. Outro que se destaca é "Destino em Apuros", de 1954. Mas este último, já quando a Vera Cruz havia decretado falência.

Na década de 1950, já aparecem as primeiras obras do denominado Cinema Novo, que teve como principal característica a afirmação do cinema brasileiro no cenário internacional. "Rio 40 Graus", de Nelson Pereira dos Santos, foi um grande marco desta época, que já contava com grandes mudanças nos temas abordados, que passaram a ser temáticas de cunho social e político. Além desta obra, um grande nome que surgiu na época foi o do memorável cineasta baiano Glauber Rocha. Suas obras "Deus e o Diabo na Terra do Sol" e "O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro", de 1964 e 1968, respectivamente, marcaram época.

PORNOCHANCHADAS E BOCA DO LIXO

No começo dos anos 70, com a popularização garantida do cinema brasileiro e as diversas oportunidades de se entrar no ramo, começaram a surgir as pornochanchadas em produções conhecidas como boca do lixo, que nada mais eram do que produções de baixo custo, baseadas em comédias italianas com forte teor erótico. Esse estilo de filme foi uma febre no Brasil, e se popularizou com a película “A Viúva Virgem” do cineasta Pedro Carlos Rovai. Mas com o passar dos anos, com a chegada de filmes adultos mais explícitos, as pornochanchadas perderam seu espaço nas telonas e, consequentemente, sua notoriedade. Mesmo com a queda de público dos filmes nacionais no final da década de 70, filmes como “Dona flor e seus dois maridos” (1976), do cineasta Bruno Barreto angariaram multidões para a frente das telonas. Além dele, filmes de comédias com a turma dos “Trapalhões” atraem milhões de espectadores.

A SEGUNDA CRISE

Os anos 80 chegam com força total e, com eles, as locadoras de vídeos explodem em popularidade e viram marca registrada dessa época. Com o cessar da ditadura no meio da década, aliado à uma nova crise econômica que abalava o país, o futuro do cinema nacional se tornou incerto.

Com mais uma crise econômica, mais uma crise no cinema. Os produtores cinematográficos não tinham dinheiro para produzir os filmes e essa falta de dinheiro se refletiu na falta de interesse do público, como já era esperado. Mesmo com as inúmeras ocorrências, alguns sucessos conseguiram ser veiculados, como "Jango"(1984), de Sílvio Tendler e "Cabra Marcado Para Morrer" (1984), de Eduardo Coutinho. A chegada de Fernando Collor, no início da década de 90 só piorou a situação. Com as privatizações, aliado às extinções do Ministério da Cultura, e acaba com a Embrafilme, o Concine e a Fundação do Cinema Brasileiro, a situação só parecia piorar e as expectativas não eram das melhores.