10 de julho de 2026
Entretenimento

Dona Maria odiava que falassem mal de Araçatuba

Por Redação |
| Tempo de leitura: 4 min

O ônibus executivo já estava estacionando na rodoviária quando Sirileide desabafou, quase gritando:

Ai, que alívio sair dessa cidade!

Dona Maria, uma araçatubense de cinquenta e nove anos que estava em pé ao lado da moça, ficou curiosa.

Uai, minha filha… Cê num gosta di morá aqui, não?
(Sirileide) - Eu nunca morei aqui, Deus me livre! Vim para a Expô e, graças ao bom Pai, já tô indo embora.
(Dona Maria) - E ondi cê mora é melhor?
(Sirileide) - Nossa, bem melhor.
(Dona Maria) - Qui qui tem di tão bão por lá?
(Sirileide) - Ai, pra começar, quase não existe mosquito da dengue. Aqui, eu tinha que ficar passando repelente de duas em duas horas, aqueles zumbidos na orelha, pavor!
(Dona Maria) - Óia, se quase num existi, é porque existi, né? E os número di caso di dengue muda todo anu. Num cospi pra cima qui cai na testa. Fora qui é só comprá aqueles repelente com hidratanti. Daí já fica cá pele qui é um brincu.
(Sirileide) - E o tanto de buraco? O asfalto é cheio de crateras!
(Dona Maria) - Só disviá! Si num sabe dirigi, pega um Ube. E si num tá enxergano direitu, pricisa é di óculos.
(Sirileide) - Qual é seu nome?
(Dona Maria) - Dona Maria.
(Sirileide) - Dona Maria, eu não queria ofender a senhora. Desculpa, acho que pensei alto demais.
(Dona Maria) - Magina, num ofendeu, não! Como você si chama?
(Sirileide) - Sirileide.
(Dona Maria) - Siri o que? Cê divia era odiá seus pai, não Araçatuba. (Risada alta). Tô brincanu, mais acho que você divia voltá em época normal pra cá, duranti a Expô fica muito cheiu mesmu.
(Sirileide) - Jamais! Esse calor em julho, gente… Como pode isso?
(Dona Maria) - Cê num passô frio nu sábado, não?
(Sirileide) - Muito! Mas o calor voltou.
(Dona Maria) - A vida é assim, minha filha. As coisa vai e volta.
(Sirileide) - Minha prima disse que, em janeiro, dá pra fritar ovo no asfalto.
(Dona Maria) - I qué coisa melhor do que economizá gáis?
(Sirileide) - Detesto calor.
(Dona Maria) - Tua cidade fica em qui país?
(Sirileide) - No Brasil, claro.
(Dona Maria) - Intão faiz calor também. Du jeito que você falô, achei qui fossi lá com os americanu.
(Sirileide) - Ai, Dona Maria, e os shopping centers? Pequenos, sem nada.
(Dona Maria) - Ah, mais viajá pra conhece shopping center é coisa di genti tonta.
(Sirileide) - E os cinemas? Tudo filme dublado!
(Dona Maria) - Cinema? Piorô! Cada programa furadu… Cê num pescô?
(Sirileide) - Não.
(Dona Maria) - Num nadô no rio?
(Sirileide) - Não.
(Dona Maria) - Num cumeu cupim casqueradu?
(Sirileide) - Também não.
(Dona Maria) - Ah, então disculpa, tua viage é que foi uma merda!
(Sirileide) - Uma merda é essa rodoviária! Um povo jeca…
(Dona Maria) - I ixisti rodoviária boa? Nunca vi. Si você é tão fina, pegassi um avião.
(Sirileide) - Tenho pânico de avião!
(Dona Maria) - E depois nóis que é jeca? Toma seus tento!

Natália, a filha caçula de dona Maria, estava ao lado de sua mãe e achou melhor cortar a conversa.

(Natália) - Mãe, para de encher o saco dos outros! Desculpa, Sirileide, minha mãe não consegue segurar essa bocona.
(Dona Maria) - Qui isso, sua atentada? Corriginu sua mãe? Mi dexa! Tô aqui conversanu di boa com a moça!

Sirileide deu uma risada irônica.

(Dona Maria) - Qui foi, Sirileni? Tá rino da minha cara?
(Sirileide) - Meu nome é Sirileide, senhora. E eu não estava rindo da sua cara. Eu tava era me lembrando do supermercado onde fiz compras. Duas horas na fila.
(Dona Maria) - Sinal qui as pessoa aqui tem dinhero pra comê, né? Qui bom.
(Sirileide) - A farmácia que fui também tinha fila de uma hora.
(Dona Maria) - Sinal qui o nosso povo si cuida!
(Sirileide) - Fora a dificuldade de andar na rua. Cidade sem árvores! Sol na cabeça o tempo todo!
(Dona Maria) - Ussassi uma sombrinha. Tem nu camelô por deiz reais. Qué sabe? Cê qui é chata dimais, minina! Vai imbora logo daqui, assombração!
(Sirileide) - Ai, me poupe! Desculpe, Natália, mas sua mãe é louca. Vou guardar minha mala e entrar no ônibus, a senhora que encontre outra pessoa pra ficar encher o saco. Adeus.
(Dona Maria) - Vai tardi, encosto! Isperu que cê vai du lado di um bêbadu bem fidido! E ó, num volta mesmu! Nóis num ti qué aqui! Lazarenta!

Natália não sabia onde enfiar a cara.

(Natália) - MÃE! QUE VERGONHA QUE VOCÊ ME FEZ PASSAR! Ninguém é obrigado a gostar da nossa cidade, não!
(Dona Maria) - E eu num sei? Cidade quenti, esburacada, sem árvuri e cheia di dengui du caralhu! Desgracera! I essa rodoviária cainu aos pedaçu? Óia só qui coisa feia!
(Natália) - Ué, mas se a senhora acha tudo isso, por que ficou tão brava com a moça?
(Dona Maria) - Purque Araçatuba é igual a mãe da gente: só nóis é qui pode falá mal dela. VAI TOMÁ NO C*, SIRILENI!

Celso Dossi é escritor, colunista e roteirista. Contato celsodossi@gmail.com