É possível reconhecer na filmografia de um cineasta uma série de características que se repetem e configuram um modelo, ou estilo. Alguns criam narrativas e visuais tão próprios que seus nomes acabam se tornando uma marca, como é Alfred Hitchcock em relação ao suspense, por exemplo, ou Steven Spielberg com os blockbusters (aqueles filmes que arrebentam nas bilheterias). Quando um diretor encontra possibilidade para trabalhar seu estilo, o que nem sempre ocorre na indústria cinematográfica, as chances de surgir uma obra de arte mais autêntica e provocadora são maiores. Mas também pode ocorrer uma pasteurização da obra se usar sua fórmula repetitivamente, pois vai desgastar suas ideias e transformá-las num clichê. Nos últimos anos, dois famosos diretores norte-americanos vêm se perdendo no seu estilo ao cometer sucessivas repetições de formatos narrativos e visuais. Ambos estão num processo de desgaste após tantas repetições. Falo do Tim Burton e do Quentin Tarantino. Burton tornou-se uma marca: sua especialidade é criar universos góticos e sombrios para ambientar tramas fantásticas protagonizadas por personagens outsiders e antissociais. Cravou seu visual em títulos como Edward Mãos-de-Tesoura, Batman, Os fantasmas se divertem, A lenda do cavaleiro sem cabeça. O jeito leve de contar histórias amarrado a um visual pesado virou uma muleta para o diretor nas últimas décadas. Seus últimos filmes, como O lar das crianças peculiares, Sombras da Noite, Alice no País das Maravilhas e A fantástica Fábrica de Chocolates são bem produzidos, o que mostra que o estilo de Burton atingiu seu auge em acabamento estético e efeitos especiais. Mas o apelo visual já soa sem propósito e não deslumbra como em suas obras dos anos 1980-90. Tarantino também está usando sua própria criação como muleta. Seus últimos três filmes – Bastardos Inglórios, Jango Livre e Os oito odiados – são a demonstração do diretor fazendo o que ele mais gosta: escrever diálogos (longos). Em 2019, tanto Burton quanto Tarantino estão com filmes novos. O primeiro, que já estreou sua versão de Dumbo, repetiu-se novamente. O segundo, que está lançando Era uma vez em… Hollywood, é um dos mais aguardados do ano.
Fernando Verga é jornalista