O título deste artigo soa como a linha do tempo da capa da edição de hoje. Essa idade vem para mostrar as marcas no rosto, as rugas e os sinais que o implacável passar dos anos também imprime na Folha da Região, o filho mais velho do Dr. Genilson Senche. De quando o sonho de um visionário começava a ser construído - entregando a revista Cinelândia nas portas do cinema de Araçatuba na década de 60 ou ainda em se tornando liderança estudantil no grêmio do I.E. Manoel Bento da Cruz -, até hoje, muito mudou. Especialmente no meio utilizado para a divulgação das notícias. Foram tempos difíceis, de lutas, censura, trabalho árduo e de uma economia corroída pela inflação. Tempos em que o jornalismo era feito “na unha”, as prensas eram “geringonças” que cunhavam no chumbo as letras garrafais das manchetes e também cada vírgula dos textos. Hoje, o jornalismo é mais suave, as notícias estão a um clique, mas aparecem eivadas de opiniões e mentiras.
Esta Folha ficou órfã de seu “criador” pouco antes de completar 29 anos. Meu pai foi o motor e o cérebro deste jornal ao longo de sua história e sua morte prematura, aos 54 anos, em 7 de junho de 2001, poucos dias antes de o 29º aniversário do jornal, quando as mudanças começavam a surgir, foi um baque, mas também a motivação para manter viva a sua memória, embora enfrentando muitas lutas.
Fazer jornalismo não é agradar a todos. Fazer jornalismo é levar notícia aos leitores. É lutar pela cidadania, pela democracia, pela transparência dos atos do poder público. Profissão que mais desagrada do que agrada, ser jornalista é uma missão. Desagrada porque as pessoas não querem ouvir a verdade e esta, nem sempre, é conveniente quando se lida com corruptos e corruptores. Fazer jornalismo vai além de ideologias. É algo com o qual se nasce. É uma profissão pouco compreendida, especialmente em tempos de internet, onde as vozes que ecoam, o fazem desprovidas de critérios, de conhecimento e cheias de si. Por isso, o campo é fértil para as fake news.
Atualmente, não há como se dissociar jornalismo de internet. É um meio que veio para ficar, mas, cada vez mais, tende a se tornar terra sem lei, de ninguém, propícia a ofensas e crimes. E é nessa seara que o bom jornalismo, aquele pelo qual a Folha da Região se tornou conhecida, atua. Ao bom jornalista não é permitido partidarismo, ideologia ou fanatismos. Ao bom profissional da imprensa cabe o discernimento para fazer a “roda girar”. Ser jornalista é prover subsídios para que os leitores possam, de maneira salutar, optar por aquilo que, segundo suas convicções, seja o correto, o idôneo, o aceitável.
“Falar até papagaio fala”, mas para falar visando a um bem maior que é o progresso da humanidade é preciso ter coragem, ter peito e propriedade. Falar quando se “pede cheques”, é fácil. Difícil é falar na certeza de que a crítica ou elogio são merecidos. Falar com a consciência tranquila é o papel do jornalista de verdade.
De alguns anos para cá, o que mais se lê e vê são pessoas que não aceitam críticas e, por isso, lançam fake news na tentativa de minar a credibilidade dos outros, agindo de má-fé. O bom jornalista é um ser em extinção, que perdeu o amor e se deixou carregar pela corrupção que hoje domina todo o sistema, ou, ainda, se viu amordaçado, sem voz, acuado pela “lei do mais forte”.
A imprensa de verdade, incomoda. Incomodou Lula, Collor, Fernando Henrique, Itamar Franco, Michel Temer, os generais do Golpe de 64, prefeitos, deputados, vereadores e vai incomodar a todos que se julguem superiores ou queiram levar vantagens. Afinal, esse é o papel da imprensa de verdade: incomodar para que a evolução social seja, cada vez mais, uma realidade. O bom jornalismo vale muito… e custa muito. E não pode ser feito sem abdicação de valores pessoais.
Ana Cristina Lemos Cenci, jornalista e advogada, é diretora de conteúdo da Folha da Região