10 de julho de 2026
Artigo

Filosofe sobre seus boletos - Por Jean Oliveira

Por Redação |
| Tempo de leitura: 3 min

A maioria das pessoas acredita que filosofia é coisa de gente desocupada, chata ou metida a inteligente. Muitas pessoas defendem que no cotidiano raso não há tempo para pensar e que, além do mais, é confuso demais decorar os nomes daqueles pensadores e suas ideias.

Há uma frase recorrente nas redes sociais que diz que a vida é pagar boletos e tentar emagrecer. Muitos compartilham isso em suas páginas virtuais achando graça por estarem desdenhando de todo o resto. Assumindo que a existência está restrita em lutar para sobreviver às contas.

Para grande parte da população, pensar demais é pré-requisito para esquisitice e loucura e uma ideia só tem valor real se ela puder ajudar a nos manter vivos, pagando as contas. Por isso, na vida real não dá para perder tempo pra ficar refletindo.

O que elas não sabem é que ao pensarem assim, estão não só filosofando como concordando com os grandes pensadores. Muitos deles defendem, inclusive, que só gente chata é profunda e reflexiva o tempo todo.

Os grandes frutos do pensamento só têm validade se eles puderem ser úteis no dia a dia. E para nos ajudar a usar todo arsenal de conhecimento em nossas vidas, o filósofo pop brasileiro Luiz Felipe Pondé escreveu a obra “Filosofia do Cotidiano. Um Pequeno Tratado Sobre Questões Menores”.

Neste livro, ele explica de forma simples e direta, que pensar não é perder tempo com coisas fora do tempo e do espaço. Ele defende que filosofar está mais ligado ao despertar do sonambulismo que nos tira da repetição automática de acordar, comer e dormir. Com base nas premissas de grandes mestres, ele discute questões como carreira, criação dos filhos e um dos assuntos da moda, a felicidade.

É neste ponto, sobre ser feliz, que ele usa todo o seu lado ácido, destacando que pensar não vai te fazer mais entusiasmado, mas te impedirá de cair em armadilhas do marketing e na terrível arapuca de crer que a alegria é obrigatória e indicadora de sucesso.

“Somos seres muitos mais acanhados em nossa natureza do que a aberração feliz postada nas redes sociais (e na publicidade em geral). Suspeito mesmo que a própria ideia de felicidade se tornou uma variável patogênica em si”, afirma Pondé, que acrescenta que quem tem medo de sofrer é incapaz de desejar. E já discutimos neste espaço, em outras oportunidades, que todo aquele que não anseia por algo se torna um repetidor de atos e gestos.

Recomendo muito a leitura deste livro, que pode ser consumida em uma noite ou na sala de espera do banco ou do médico, para que a gente possa sair do piloto automático. O vencer-se, que temos proposto em nossos artigos, está baseado neste processo de acordar, que prega a filosofia.

Quem reflete sobre o que faz, porque faz e como poderia fazer para obter mais e melhores resultados têm mais chances de ter uma vida mais interessante e próspera. Despertar tem a ver com o autoconhecimento que recorrentemente conversamos aqui. Afinal de contas, todos aqueles que se conhecem conseguem saber onde estão e para onde vão querer ir.

E os boletos continuarão chegando, mas podem ser menos sobre roupas baratas e mais sobre viagens internacionais. Menos sobre conserto do carro velho e mais sobre um carro zero. O mundo sempre será do tamanho que você conseguir ver. E para ampliar seu campo de visão, a filosofia é uma excelente janela.

Jean Oliveira é jornalista, bacharel em Turismo e funcionário público municipal