Vou tentar. Preciso. Vou fazer essa experiência hoje. Não vou olhar o relógio. Não vou contar as horas que faltam para chegar ao meu destino. Não vou recapitular meus passos para me certificar de que fiz tudo o que precisava ser feito. Não vou questionar a qualidade do que fiz. Não vou ficar planejando o que ainda há para fazer. Não vou me desesperar por cada minuto desperdiçado sem fazer algo de útil.
Hoje simplesmente vou olhar pela janela e apreciar a paisagem como há muito não faço. Notar as cores ao meu redor que há muito me passam despercebidas. Enxergar as coisas, não apenas passar por elas. Olhar por outra perspectiva o que está ao meu lado.
Admirar esse céu tão azul. Lembrar que quando eu era criança deitava na calçada com os braços cruzados atrás da nuca, olhava fixamente para cima e imaginava que contemplava o mar. Que as nuvens eram na verdade a espuma que as ondas formavam. Que eu via o mar por cima e não o céu por baixo.
Lembrar como era poder pensar em nada. Lembrar quem eu era. Descobrir quem eu sou, antes que eu não seja mais. Para então distinguir quem eu quero me tornar.
Hoje, mais do que nunca, lembrei de Mário Quintana e seu poema “O Tempo”, na sua verdade crua que diz: “A vida é o dever que trouxemos para fazer em casa. /Quando se vê, já são seis horas! /Quando se vê, já é sexta-feira! /Quando se vê, já é Natal! / Quando se vê, já terminou o ano…/ Quando se vê perdemos o amor da nossa vida. /Quando se vê passaram 50 anos! / Agora é tarde demais para ser reprovado…/Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. / Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…”
Para seguir em frente resoluta preciso dessa decisão. Estou abrindo mão da “casca dourada e inútil das horas”. Só hoje.
Ana Laura de Almeida é cirurgiã dentista