Alguns anos atrás, conheci uma ilha colombiana chamada San Andrés. Antes de conhecer o mar caribenho percorri as lojinhas da cidade atrás de comprar uma sunga. Ainda no hostel os gringos riram muito dessa ideia. Uma jovem polonesa que lá estava já há 4 meses me disse que sunga era algo "exagerado", "excessivo". Em uma das lojas que passei a vendedora me disse que eu não encontraria uma sunga na Ilha e que um homem do meu porte não deveria usar essa peça. Comecei a achar curiosa essa diferença cultural e com humor e descontração especulei. Foi quando ela me disse com todas as letras que sunga era coisa de “maricón”, ou seja, de gay.
Homem com sunga ou é gay ou é brasileiro me explicaram. Como não consegui comprar usei a que tinha. No final do dia já a noitinha ao voltar para o hostel, que ficava um pouco distante do centro, estava escuro eu caminhava de sunga. Ainda faltava umas 5 quadras para chegar ao destino e notei vários grupos de caras na rua conversando, fumando etc. Como estava de sunga e o caminho era meio “punk os caras ficaram me encarando de modo que percebi como desagradável. De repente um calafrio e me peguei com muito medo. Talvez tenha sido um erro de atribuição de minha parte por conta das "sugestões" anteriormente vivenciadas.
Porém disso tirei uma lição curiosa. Refletindo a respeito, pensei em tantos homossexuais no Brasil que sofrem violência nas ruas por nada.
Conversando sobre isso, uma amiga me chamou a atenção para o fato de que as mulheres são desrespeitadas, tocadas, estupradas por estarem com uma roupa x ou y.
Há argumentos absurdos que ainda tentam justificar a violência, tais como, "também com aquela saia ela estava querendo." Eu gosto de usar sunga pois ela é peça extremamente confortável e só. Não deve ser muito diferente o motivo para as mulheres usarem saia ou short. Essa experiência me colocou na posição de como é ser o alvo de estereótipos do imaginário social por um dia. E pensar que mulheres e homossexuais experimentam situações assim diariamente. Até quando?
Rui Mateus Joaquim é psicólogo