Não se pode avaliar um governo eleito para governar por quatro anos em pouco meses. Entretanto, bastam poucos meses para se entender qual a linha de governo, nem sempre informada com clareza na campanha eleitoral.
Nas eleições de 2018 pouco se discutiu a respeito das propostas efetivas dos candidatos. O debate eleitoral do ano passado foi raso, centrado em pautas de costumes em detrimento das pautas estruturantes para o país, como as reformas da previdência, política, tributária, entre tantas outras de urgência inquestionável.
Fora as propostas de Sergio Moro, ministro da Justiça, para a área da segurança pública e combate ao crime organizado e de Paulo Guedes, ministro da Economia, responsável pela elaboração da proposta da “nova Previdência”, o fato é que o governo Bolsonaro ainda não mostrou a que veio, senão pela diversas polêmicas em que seus integrantes se envolveram ou por aquelas criadas pela família presidencial, em especial por Carlos Bolsonaro.
Apenas para lembrar algumas das diversas polêmicas com a qual o governo perdeu tempo e capital político: o caso Queiroz; a crise dos Laranjas do PSL que culminou com a queda do ministro Pedro Bebianno; a questão do “menino veste azul e menina veste rosa” da ministra Damaris, a polêmica gratuita do “golden shower”, as laranjas do ministro do Turismo, a disputa do filho do presidente com o vice-presidente Hamilton Mourão e os desentendimentos do próprio Presidente com Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, além das inúmeras polêmicas criadas pelo ex-ministro da Educação, entre outras.
Ante a tantos problemas latentes em nosso país, o Presidente Bolsonaro recentemente dignou-se a preocupar-se com uma peça publicitária do Banco do Brasil, aflorando aquela que parece ser a pauta mais importante para o presidente em detrimento de todas as outras: a pauta dos costumes. E já havia sido assim em toda a campanha eleitoral, mas a campanha acabou e o país precisa ser governado com foco nos verdadeiros problemas.
É preciso que a sociedade deixe claro ao Presidente Bolsonaro quais são suas reais e urgentes expectativas. Não é admissível que o presidente de um país com mais de treze milhões de desempregados preocupe-se em censurar uma campanha publicitária de um banco de economia mista, como é o Banco do Brasil.
Onde está a proposta de reforma política que garanta um sistema menos suscetível à corrupção e ao mesmo tempo mais representativo? Ou a tão sonhada proposta de reforma tributária que se paute pela justiça social e tributária?
É claro que não compete ao governo aprovar tais propostas, mas cabe a ele o papel de protagonista e de start do processo legislativo reformista nas diversas áreas, além de que, uma vez proposta, a reforma deve empenhar seu capital político, cada vez menor graças às polêmicas, inúteis para o país, em que o presidente se envolve a cada dia.
Governar é preciso. Polemizar não é preciso, nem desejável, muito menos produtivo.
Evandro da Silva é advogado