09 de julho de 2026
Artigo

Aproveite, estamos condenados

Por Redação |
| Tempo de leitura: 3 min

O coqueiro só pode dar cocos como frutos. O cachorro adoraria falar com seu dono, mas no máximo pode se comunicar pelo abano de rabo e olhar. O sol não pode resolver dar uma volta noturna e curtir a beleza da madrugada silenciosa. Tudo isso porque apenas o ser humano tem o privilégio de escolher seu caminho, de imitar a natureza e tomar suas decisões.

E pior. Seguindo a lógica de que ninguém nasce formatado de fábrica para ser isso ou aquilo, o homem e a mulher ainda podem escolher o caminho a seguir. Uma pessoa que tem grande facilidade para tocar um instrumento musical pode escolher seguir seu caminho como diversão ou ignorar sua propensão. Bem treinada e determinada, ela pode ser um excelente matemático.

Por isso que o filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre (1905-1980) dizia que o homem está condenado à liberdade. Ou seja, nascemos para fazer nossas escolhas. E isso é bom e ruim, como tudo na vida. Se é muito bom podermos dar frutos diferentes e nos comunicar das mais diversas formas, também devemos e sofremos todas as angústias desta liberdade.

Uma pessoa não escolhe em que país nascer, mas pode escolher em qual irá morar. Não escolhe nascer rico ou pobre, mas de acordo com seu esforço (para uns mais que os outros) as pessoas podem ascender ou cair na pirâmide social. Você nasceu aprendendo português, mas com um pouco de dedicação diária, em um ano já será capaz de se comunicar em francês, inglês ou até japonês.

Recai sobre cada pessoa lidar com o sucesso e o insucesso que a si mesmo provocou com seus atos. Há uma linda canção do mestre Cartola, chamada “O mundo é um moinho”, em que em forma de samba discute esta questão profundamente filosófica de alta extirpe.

Em sua música, Cartola conversa com uma personagem que resolve deixar a segurança da vida atual para se aventurar pelo mundo. Em dado momento, o compositor diz, com toda sua capacidade poética: “preste atenção, o mundo é um moinho. Vai triturar teus sonhos, tão mesquinhos. Vai reduzir as ilusões a pó. (…) Quando notares estás à beira do abismo. Abismo que cavaste com os teus pés”.

À luz dos existencialistas, o peso da liberdade colocado sobre o homem pode parecer excessivamente pessimista, fatalista, de uma solidão extrema no íntimo de nossas decisões. Mas, ao contrário, o existencialista coloca o futuro em nossas mãos, nos dá total autonomia moral, política e existencial, além da responsabilidade por nossos atos. Crescer não é tarefa das mais fáceis.

Estamos em uma espécie de Big Brother sem vencedor final. Todos serão eliminados, mais cedo ou mais tarde, por isso temos que fazer o melhor neste período que nos resta. A liberdade tem que ser exercida, é claro, com ética e algum princípio (o religioso é o mais comum).

Mas, de toda forma, até a escolha dos parâmetros é submetida antes à liberdade. Já que estamos condenados a ter o livre-arbítrio, que o exerçamos da melhor forma possível. Uma boa dica é decidir ser mais produtivo e aproveitar melhor o tempo para criar oportunidades de aprendizado e realização.

Vencer-se é não abrir mão da liberdade de superar-se, de ser hoje melhor do que foi ontem. Que seus pés não cavem abismos para si e para os outros. Que a liberdade seja usada para vencer os moinhos que a vida apresentar. Que a condenação seja uma doce prisão.

Jean Oliveira é jornalista, bacharel em Turismo e funcionário público municipal