09 de julho de 2026
Artigo

Último trem para o futuro

Por Redação |
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Em 13 de janeiro de 1943 o mundo conheceu a arquitetura brasileira por meio da exposição Brazil Builds: architecture new and old, 1652-1942, realizada no Museu de Arte Moderna de Nova York. A arquitetura moderna brasileira desenvolvida na primeira metade do século XX foi representada pelos edifícios de Oscar Niemeyer e da “escola carioca”.

No mesmo momento crescia em São Paulo outra corrente da arquitetura com características diferentes: a escola paulista brutalista. Esta, popularizada principalmente por Vilanova Artigas, Lina Bo Bardi e Paulo Mendes da Rocha, tinha estreita relação com a engenharia civil. Diferentemente da arquitetura carioca, nascida na Academia Imperial de Belas Artes, a paulista vem da Escola Politécnica e carrega, por natureza, a qualidade técnica.

Ao contrário das curvas de Niemeyer, as obras paulistas materializam cálculos estruturais em vãos, balanços, vigas e pilares em concreto aparentes, pórticos, lajes nervuradas, etc. Nos anos 50 e 60, arquitetos e engenheiros paulistas projetaram edifícios de todos os tipos, deixando marcas dessa linguagem. Em cidades mais ricas os edifícios eram maiores e mais imponentes, em outras, mais modestas, as obras eram menores e mais tímidas. Entretanto, todas sempre cheias de personalidade.

Voltando à Niemeyer, há em Brasília exemplos claros da estética carioca. Em Araçatuba, também havia: A antiga sede do Araçatuba Clube, que hoje deu lugar a um arranha-céu. Em são Paulo, ao contrário, há exemplos da estética paulista: o icônico MASP. Em Araçatuba, ainda há uma sobrevivente testemunha: a plataforma de embarque e desembarque da antiga estação.

Entre a arquitetura kitsch (que vulgariza símbolos estéticos do passado) da loja Havan e edificações do conjunto ferroviário, a modesta plataforma marca um período particular importante da história da arquitetura e da cidade. Sua despretensiosa solução, a saber, marquise em balanço, caixilhos metálicos, pilares e tijolos aparentes, guarda mais do que valores arquitetônicos. O principal valor reside na materialização da memória de uma geração.

Sua data de construção recente - se comparada à arquitetura ferroviária - não justifica seu apagamento. Não há memória mais importante que outra. Há quem diga que se um bem não é tombado (entende-se tombamento como instrumento de preservação e não de demolição, como sugere o nome) sua destruição estaria justificada. Não passa de um argumento ingênuo ou perverso que poderia ser utilizado para a destruição de todo patrimônio que em algum momento da história não constasse em documentos de órgãos de preservação.

Há também quem argumente ser necessário destruir o antigo para dar espaço ao novo. Defendem abrir lugar para o progresso. Outro argumento superficial. Cidades das principais potências europeias reconhecem a necessidade de combinar um planejamento urbano que potencialize o conjunto histórico e as necessidades contemporâneas. O plano urbano de revitalização, unificação e modernização da cidade de Berlim nos anos 90 contou com a preservação de ruínas do muro que dividia a cidade. No caso alemão, o que antes dividia, agora integra.

A construção de uma sociedade consciente depende do acesso que ela tem sobre sua história. Uma cidade sem vestígios da história é penalizada a esquecer de seu passado e alienar seu presente. Há quem entenda a preservação patrimonial como saudosismo romântico anti-progressista. Engana-se. Uma cidade sem passado está condenada a ser uma cidade sem futuro.

Márcio Barbosa Fontão, arquiteto e urbanista, professor de História da Arquitetura.