Agradável não é ser conhecido como filho de justiceiro! Dada a frequência com que alguns pensadores e escritores apresentam Deus como implacável repressor, não é de se admirar que muitos optem desistir de relacionar-se com essa divindade tirânica. É verdade que encontram-se, na Bíblia Sagrada, pronunciamentos divinos de conteúdo punitivo. Qualquer estudioso sério entende que citações e descrições devem ser lidas respeitando os contextos literários, culturais e históricos. Descontadas as referências culturais, o leitor atento encontrará na Bíblia inúmeras outras declarações que transbordam ternura, amor e consideração para com o ser humano. O Deus da Bíblia faz questão de revelar sua tenra solicitude pelo ser humano. O amor fragiliza o amante. Deus, pois, não hesita em se revelar vulnerável.
Na condição de filho do Deus-amor, o crente se sente na obrigação de combater essas representações distorcidas da identidade divina. Fica perfeitamente aceitável contrapor à citações negativas outras inúmeras declarações afetivas. Contudo, a própria Bíblia sugere que a apologia realmente convincente não repousa em discursos, mas em gestos concretos de caridade solidária. O próprio Filho de Deus declara que atrairia todos a si quando for levantado da terra, prenunciando sua morte voluntária na cruz. Crucificado, o Filho de Maria dá a mais inconteste declaração de amor pela humanidade: ninguém tem amor maior do que dar a vida pelos amigos! Os amigos a que Jesus se refere não representam aquele círculo seletivo e excludente. No rol de ‘amigos’, Jesus inclui os opositores, aqueles mesmos que por implicância tramaram sua condenação. Crucificado, o Mestre clama por perdão por seus algozes. Na cruz acolhe um criminoso, prometendo-lhe o céu! Emerge assim a logística mais apropriada para apresentar uma apologia convincente da real identidade divina: a prática do perdão, da acolhida, da reconciliação.
As pessoas se convencem da verdadeira identidade divina, e vão querer se aproximar da sua mansa e humilde pessoa, quando enxergam naqueles que se apresentam como filhos, atitudes coerentes e genuínas de misericórdia, de acolhida, de perdão. Só se acredita no Deus-amor quando se percebe concretas iniciativas de desinteressada caridade e gratuita bondade. Quando, enfim, as igrejas e os templos se transformarem em genuínas casas de misericórdia, espaços que atraem não tanto pela suntuosidade da liturgia, nem pela vibração de cantorias nem pela emoção das coreografias, mas pela genuína prática da acolhida, da tenra misericórdia, da alegre reconciliação. É com esta dimensão solidária que as comunidades cristãs devem se comprometer. Enquanto as nossas assembleias não testemunharem esse evangélico ambiente de fraternidade, de genuíno e puro convívio, os críticos e os céticos continuarão insultando Deus como tirano sanguinário.
Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba