10 de julho de 2026
Entretenimento

Dona Mercedes queria a volta da ditadura

Por Redação |
| Tempo de leitura: 5 min

Marilena mal havia entrado na casa de seus pais quando ouviu os soluços de Dona Mercedes. Apavorada, correu para o quarto dela. "O QUE FOI, MÃE?" De camisola e abraçando um travesseiro, a septuagenária desabafou. "Ai, fia, tô sofreno tanto. Eu queria a volta da ditadura".

Não acreditando no que tinha ouvido, Marilena se jogou em cima da cama. "QUE? A senhora endoidou de vez?" Dona Mercedes negou. "Não, fia. Bem que eu quiria. Se as moças du mercado fica pidino a volta da ditadura, pur que eu num possu? Também sô fia de Deus". Marilena insistiu. "Mãe, cê parou seus remédios?" Mercedes baixou a cabeça. "Talvez fosse mió, né? Com a vida qui tô levanu, mió morrê logo".

Marilena deu uma risada, o que irritou sua mãe. "OCÊ RI, NÉ, SIRIGAITA? Tá cum a vida boa, as buchecha rosadinha, daí vem na casa dus otro debochá". Marilena perdeu a paciência. "Ah, mãe, tenha dó! Eu tô cheia de problemas, a Clélia no hospital com dengue, o Mário Sérgio acabou de levar uma picada de escorpião, daí consigo um tempinho para ver vocês e ainda tenho que ouvir a senhora querendo volta de ditadura?" Dona Mercedes estava irredutível. "Veio purquê quis".

Marilena segurou seus pertences. "Tchau, mãe. Que a senhora não era certa da cabeça eu sempre soube, mas chorar por causa dessa bobagada toda que andam repetindo, aí já é demais pra minha cabeça." A mãe desdenhou. "Vai pela sombra, vagabunda".

Falando sozinha, Marilena foi saindo pelo corredor. "Pronto, mais essa! Empregada com dengue, marido envenenado por escorpião e agora mãe louca falando bosta sobre política". Dona Mercedes deu um berro. "E QUEM DISSE QUE TÔ FALANU DI POLÍTICA, DISACORÇUADA?" Marilena deu alguns passos para trás e se escorou na porta, aguardando uma resposta. Dona Mercedes desabafou. "Tô falanu é du pintu do seu pai, fia. Num sobe mais".

A risada de Marilena saiu tão forte que uma vizinha de muro chegou a ouvi-la. "ARRÁRRÁRRÁRRÁ Ai, mãe, você me mata! RÁRRÁRRÁRRÁRRÁ!" Dona Mercedes ficou brava. "Tá rino purque o safado du seu maridu cumparece, né?" A filha jogou o corpo na cama novamente. "Não, dona Mercedes. Tô rindo porque essa tal ditadura de que tão falando por aí é outra coisa completamente diferente. Ditadura militar, mãe! Aquele período que começou em 1964, não se lembra? Censura, autoritarismo, gente ferida, choque, bomba, cassetete pra todo lado …" Dona Mercedes suspirou. "Ô, si lembru. Diliça! Era ditadura toda noite nessa cama. O pau torava!"

Marilena desistiu de tentar explicar. "Tá bom, mãe. Calma. Me explica melhor o problema da ditadura". Mercedes deu de ombros. "O problema é qui ela num apareci mais, né? Eu pelejo, pelejo, fungu nos ouvidu dele, façu cafuné, falu sem-vergonhice i nem. uma mixidinha. Até camisola tô usanu, fia! Cê já tinha vistu a mãe di camisola? Roxa ainda, quiria ficá bem safada. Achei qui seu pai tava desanimanu pur causa das anágua."

Tentando se controlar para não gargalhar novamente, Marilena, prática como sempre, achou uma solução. "Vamos fazer assim. Eu já ia na feira mesmo, passo naquela barraquinha de ervas medicinais e compro tudo o que indicarem, tá? Já volto. Agora levanta dessa cama, lava essa cara e bola pra cima!" Mercedes obedeceu, mas não deixou passar em branco. "Bola pra cima? Diz isso é pru seu pai".

Em minutos, Marilena já tinha deixado um arsenal caseiro na mesa da cozinha de seus pais. "Pronto, agora a senhora vai fazendo esse chás e dando pro pai. Comprei tudo o que tinha! Pó de guaraná, ginseng, raíz de catuaba, casca de marapuama, alecrim, chapéu de couro, maca peruana. O vendedor escreveu as receitas nesse papel. Disse que, se tomar certinho, em três dias a ditadura tá de volta." E aconselhou. "Mas não conta nada pro papai, viu? Ele vai ficar envergonhado. Diz que faz bem pro colesterol. Ah, e adoça tudo com mel, disfarça o gosto".

Dona Mercedes estava afobada demais para ler receitas e conferir dosagens, misturando todos os ingredientes numa enorme panela de feijoada. Só de guaraná em pó, passou de um quilo. Cozinhou tudo, esperou chegar à fervura, coou, pegou um funil, despejou a bebida num galão de vinho Sangue de Boi vazio e foi servindo uma xícara para o marido a cada meia hora.

Desesperada, mentiu. "Bebe tudo. Esse chá cura câncer, bicu de papagaiu, úlcera, morroida, gota, artriti, vista ruim, diabeti, tendiniti, cobrero, prisão di ventre, sopro nu coração, artrosi, colesterol alto, dor nas junta, gripi, resfriadu, insônia e roncu". Percebendo que o marido estava incrédulo, Mercedes mentiu novamente. "Deu na Ana Maria Braga! Vira isso logo!" Em três dias, seu Arlindo acabou bebendo metade do galão. Ou seja: dois litros e meio de chá.

Ocupada com seus próprios problemas, Marilena esqueceu completamente do contratempo de sua mãe. E correu para a casa dos pais assim que se lembrou, quase uma semana depois. Estacionou o carro de qualquer jeito, e foi direto para o quarto da mãe, onde a encontrou quase desmaiada.

"MEU DEUS DO CÉU, O QUE ACONTECEU, MÃE? CÊ TÁ TODA ROXA! E esses olhos revirados, alguém te bateu?" Notando Mercedes bem fraca, continuou a examinando. "Jesus amado, a senhora tá inchada! E essa língua pra fora? Entrou ladrão aqui? Cê misturou remédio? Por favor, fala comigo!"

Mercedes juntou as forças que tinha, virou a cabeça em direção à filha e respondeu com muita dificuldade. "Ai, fia. Essa tar di ditadura é uma disgraça memo. Seu pai virô bichu! Quiria intimidadi toda hora! Sem pará! E aconteceu tudo o que ocê tinha faladu, viu? Se eu tentava reclamá, ele mi censurava. Ficô autoritáriu, mandava eu virá pra cá, virá pra lá, ficá di frango. Num tinha cunversa! Se eu tentava durmi, lá vinha uma bomba. Fiquei toda firida, foi cassetete pra todo ladu".

E dando um sorriso que parecia misturar sofrimento com satisfação, explicou. "Fui eu que pidi, né? Num possu reclamá. Mas chega, tô toda lascada, num consigo nem levantá pra passá café. Deus mi livre, Marilen!. Eu tô qui num posso mais vê aquele trem apontanu pru céu. Minha sorte é qui o chá acabô."

Antes que Marilena fosse para a cozinha passar um café, Dona Mercedes se esforçou para concluir. "E mudei di ideia, viu, fia? Ditadura nunca mais".

Celso Dossi é escritor, colunista e roteirista. Contato: celsodossi@gmail.com