Bucicleide tinha uma única grande paixão na vida: ovos de Páscoa. Mentira, tinha duas. A outra era ver seu marido, Jefferson, um rapaz magro de um metro e noventa e dois, bater a cabeça nos ovos de Páscoa que ficam pendurados em quase todos supermercados. "Espia, Délia. Ele vai meter a testa num monte. kkk" E metia mesmo. Ploft, ploft, ploft. Jefferson ficava nervoso. "Todo ano essa merda."
Quem via Bucicleide afoita pela chegada da Páscoa pensava que ela tinha seis anos. Mas ela tinha trinta e seis. Ovos de chocolate faziam a araçatubense voltar a agir como criança. "Ai, adoro todos! Sempre adorei, Délia. Até os vagabundo. Lembra daquele ovo Pan desgraçado? Eu comia inteiro. kkk Ficava p*ta com quem me dava, mas comia. kkk"
Délia ouvia tudo calada. Achava a obsessão da amiga estranha e engraçada ao mesmo tempo. Bucicleide continuava. "E aqueles ovinho que é parafina pura? Aqueles que vêm num pote de plástico enorme, sabe? Delícia! E o melhor é que ninguém encara, então fica tudo pra mim. kkk"
Bucicleide lastimava o fato de existir apenas uma Páscoa por ano. "Uma tristeza os outro onze mês, Délia. Antigamente, eu me virava com os cigarrinho. kkk Se lembra dos cigarrinho? Eu traçava três maço por dia. kkk"
Por ter nascido quase uma década depois, Délia não se lembrava dos cigarrinhos de chocolate. Bucicleide relevava. "Ah, nem esquenta. O cigarrinho virou lápis mesmo. Esses troço de politicamente correto, sabe? Imagina uma criança com cigarrinho hoje? kkk"
Aproveitando que estava no supermercado, Bucicleide encheu o carrinho com ovos de Páscoa de vários sabores e tamanhos. "Só pulo esses que vêm com brinquedo. Safadeza, mal tem chocolate. kkk" Como todo ano, Jefferson reclamava. "Vai dar uns dois mil reais!" Bucicleide dava de ombros. "Dividem em doze no cartão, bebê."
Cinira, uma senhora que estava na fila do caixa logo atrás deles, entrou na conversa. "Eu acho o cúmulo um ovo de Páscoa de duzentos e cinquenta gramas custar setenta reais. Dá pra comprar dois quilos de chocolate." Bucicleide não deixou por menos. "Ah, lá vem a fiscal de ovo. Compra os dois quilo de chocolate e deixa os outro, ué. kkk" Jefferson, que tinha pavor de encrencas, tacou panos quentes. "Baixa a bola, Bu. Desculpa, senhora. Ela fica doida nessa época do ano".
E Bucicleide não tinha preconceito com marcas. Comprava desde as melhores (Kopenhagen, Bethinha's Trufas), até os mais populares. "Esse ovo do Senninha é de lascar, mas tá quatro e noventa, vou levar. kkk"
A sorte de Bucicleide era Jefferson ser muito paciente. Mesmo irritadíssimo (tanto com a gastação desenfreada da esposa quanto pelas risadas histéricas dela), ele respirava fundo. Sabia que aquele pesadelo durava apenas alguns dias. E lamentava sozinho. "Mano, que raiva desse "kkk" dela".
No restante do ano, Bucicleide era uma pessoa exemplar. Ovos de Páscoa eram a Kryptonita dela. E, naquela Páscoa, as coisas foram um pouco mais além.
Passeando no calçadão, Bucicleide avistou um ovo de chocolate de um metro e meio bem em frente a uma loja. A pressão dela subiu para vinte. "Jesus, Maria, José!" Chegando mais perto daquilo que mais parecia um ovo de dinossauro embalado em papel laminado, Bucicleide deu um berro. "PRECISO".
E foi Tamara, uma moça sorridente, que explicou a razão daquele ovo monstruoso existir: "Minha mãe tem uma doença rara e uma marca famosa de chocolate confeccionou e doou pra gente. Tem cem quilos. É pra pagar os medicamentos. Daí tô vendendo uma rifa. Cem números, cinquenta reais cada. A senhora compraria um?"
Bucicleide quase entrou em óbito ao lado da Casa Real. "Se eu quero UM? Minha filha, se esse ovo não for meu, não será de mais ninguém. Compro todos!" Tamara ficou atônita. "Minha senhora, são cinco mil reais. E o pagamento só pode ser em dinheiro."
Nada poderia parar Bucicleide naquele momento. "Passo no banco agora, o gerente que se vire." Já chorando de emoção, Tamara se lembrou de um impasse. "Vixe, dona, já vendi quatro números. E se sair um deles?" Bucicleide não colocou fé em tamanho azar, afinal o que eram quatro perto dos noventa e seis? "Até parece. Esse trem é meu."
E foi mesmo. Quando Tamara riscou o número escondido na cartela da rifa, apareceu "22". E ele pertencia a Bucicleide. "Não te falei, mocinha? Deus é top."
Depois de alugar uma carroça, quase deixar os dois carroceiros com a coluna travada e chegar em casa, Bucicleide se deu conta: como armazenar tanto chocolate numa cidade quente como Araçatuba? "Num cabe na geladeira e nem no freezer. E já tá desmoronando!" A única solução foi quebrar o ovo em dezenas de pedaços e lotar as duas geladeiras com potes plásticos.
E mesmo forçando todo mundo a consumir o ovo gigante, Bucicleide se viu obrigada a comer chocolate durante o ano inteiro. E pegou aversão. "Ave Maria, mais um pedaço e obro uma caixa Especialidades!"
Jefferson e Tamara estavam felizes. Ele, por se ver livre da "histeria pascal" da esposa e pela mudança de dígitos na fatura do cartão de crédito. Ela, pelo tratamento de sua mãe ter sido um sucesso.
Já o discurso de Bucicleide mudou completamente.
Ontem mesmo, vendo o supermercado que frequenta lotado de ovos de Páscoa, Bucicleide soltou o verbo. "Por que não colocam essas merdas mais pro alto? Meu marido bate a cabeça! E o preço dessas desgraça? Uma carestia! Setenta conto num ovinho? Melhor comprar barra de chocolate de dois quilo! Eu, hein!"
Celso Dossi é escritor, colunista e roteirista. Contato: celsodossi@gmail.com