11 de julho de 2026
Entretenimento

Rinilda em 'Ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore'

Por Redação |
| Tempo de leitura: 5 min

Por ter começado a trabalhar muito cedo, Rinilda acabou se aposentando antes de completar cinquenta anos, o que a deixou feliz e triste ao mesmo tempo. "Dinheirinhu pinganu todo mês é uma bença, Agenor. Mais tô mi sentinu tão véia!" O marido achou graça. "Qué trocá comigo? Cê vai pra oficina, eu fico aqui".

A verdade é que Rinilda não estava acostumada com tanto tempo livre. Ansiosa, já havia limpado a casa inteira três vezes em uma semana. "Ai, tô que num guento mais ariá. Nem quará". Agenor olhou para a esposa como se ela estivesse falando outra língua. "Ariá panela e quará ropa, demônio! Óia minhas unha!"

Agenor deu de ombros, não sabia como ajudar. E antes que ele terminasse o café da manhã, Shantielle, a caçula da família, chegou na cozinha. Rinilda queria uma opinião feminina. "Fia, a mãe tá que si coça pra fazê alguma coisa. Qui qui pode sê?" Shantielle respondeu com a maior naturalidade, enquanto desrosqueava uma embalagem de Toddy. "Faz que nem aquele dito popular, mãe: "tenha um filho, escreva um livro e plante uma árvore". Meu professor sempre repete isso."

De princípio, Rinilda rebateu. "Vôti, mais já tive trêis fio, tá loca?" Depois, repensou. "Mais num é qui cê tá certa? Eu vô plantá uma árvore!" Agenor não perdeu a oportunidade de irritar sua esposa. "Ainda num li seu livro, onde vende?" Rinilda ficou possessa. "OIA, SE NUM FOR PRA AJUDÁ, NUM ATRAPAIA! EU ISCRIVI UM LIVRO, SIM, TÁ? UM LIVRO DI RECEITA."

Vendo que Agenor e Shantielle a encaravam, Rinilda prosseguiu. "OITENTA RECEITA! DI DOCE I SALGADU! Iscrivi tudo a mão e a Cleidi tirô xeróx e tacou no Zap. Tem nomi e tudo! "A Cuzinha de Rinilda". TÁ BOM PRA VOCÊIS? SEUS MITIDO!"

E foi para a filha mais velha, Estela, que Rinilda abriu o coração. Confiava na sensatez da moça. "Fia, num é que num tô agradecida por tê aposentadu. E mi orgulho de tê sido custurera, mais queria deixá alguma coisa pra cidade, sabe? As roupa rasga, istraga, vira pano di chão. Quiria Araçatuba lembranu de mim."

Estela abraçou a mãe. Sabia que tudo o que ela precisava naquele momento era de apoio. E de algo que impulsionasse sua ideia. "Arregaça as mangas, mãe! Deixa essa cidade verde! Caminhei pela Rua do Fico outro dia e fiquei de cara com a mixaria de árvores." Vendo que Rinilda estava quase convencida, Estela foi além. "Tó. Usa o meu computador. A senha é luansantana123. Fuça, procura no Google. Digita "plantar árvore Araçatuba", " arborização Araçatuba", "meio ambiente Araçatuba", essas coisas. Certeza que tem um monte de coisas. Daí arrasa."

Rinilda beijou a filha na testa, puxou uma cadeira e começou sua busca. Não demorou muito para que ela encontrasse diversas matérias sobre pessoas, entidades e projetos envolvidos com plantio de árvores na cidade.
Maravilhada, foi lendo sobre cada um deles. O primeiro foi o "Verdes Ruas", projeto de plantar árvores em calçadas e no comércio criado por um fotojornalista. Cansado de ler reclamações, ele havia criado o "Ação Verdes Ruas", assim como uma página no Facebook para divulgar as ações.

Depois, foi o "Clube da Árvore", uma ONG situada no Jardim Dona Amélia que, por meio da colaboração de voluntários, associados e ajuda de empresas, desenvolve projetos e ações. Lendo mais um pouco, Rinilda ficou sabendo que os dois projetos eram parceiros e que contavam com a colaboração da Secretaria do Meio Ambiente de Araçatuba.

Navegando um pouco mais, a recém-aposentada achou uma matéria no site da Prefeitura Municipal de Araçatuba intitulada "Meio Ambiente tem mudas de árvores para doação". Notando que a publicação era recente (15/01/2019), Rinilda se interessou. Cada munícipe tinha o direito de retirar gratuitamente uma das 2.000 mudas na sede da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade. A aposentada quase surtou. "Mais pur que qui as pessoa não levanta o rabo i vão plantá?"

Rinilda também descobriu os desafios que este tipo de iniciativa enfrenta: voluntários nem sempre são bem recebidos, muitos comerciantes não querem árvores em frente de seus estabelecimentos, diversas pessoas recusam o plantio de mudas em frente às próprias residências. Rinilda se irritou. "Essa genti come cocô?"

A aposentada então chamou Cleide, a amiga que havia "publicado o livro de receitas dela", e encomendou a criação de um panfleto. "Piqueno. Frente i verso. Ti passo as informação, cê digita. Num pricisa de muitu frufru. Desenha uma árvure aí e prontu. Os panfleto vai sê verde, usa letra preta. Vô manda fazê 5 mil." Cleide ficou curiosa. "E dinheiro?" Rinilda segurou a cintura. "Fia, aposenturia."

Com a cara e a coragem (além de uma sombrinha para se proteger do sol), Rinilda passou três semanas rodando a cidade para distribuir seus planfetos. Praça Rui Barbosa, shopping centers, calçadão, rodoviária, supermercados. Pedia licença, entregava o panfleto, falava um pouco sobre a importância das árvores.

Quando as pessoas estavam quase desistindo, Rinilda dava um xeque-mate: mostrava uma montagem com duas Araçatubas (mais uma contribuição de Cleide, que quase ficou louca para acertar no Photoshop). Na atual, rua tristes, cheias de concreto e praticamente sem árvores. Na "do futuro", rua super arborizadas, muitas sombras e gente feliz caminhando.

A iniciativa de Rinilda Atemônia dos Santos logo estava na TV, nos jornais, nas rádios e nos portais da região. E a população de Araçatuba (quem diria!) resolveu parar de reclamar do calor e meter a mão na massa.
A parte que Rinilda mais gostou foi ver a cara de Agenor e de Shantielle. "Tomô, seus mitido?"

Enchendo um copo d'água, havia chegado a hora de Rinilda sair por cima. "Num falam por aí qui aposentadu qué sombra i água fresca? A sombra eu já providenciei. Então cêis dão licença." E, piscando um olho só, virou o copão de uma vez.

(Moral da história: tendo um filho ou não, escrevendo um livro ou não, que tal plantar uma árvore?)

Celso Dossi é escritor, colunista e roteirista. Contato: celsodossi@gmail.com