Em decorrência de um colapso mental, Friedrich Nietzsche saiu vagando sem destino. E a viagem foi tão longa que, quando o filósofo chegou ao Brasil, imaginou que havia viajado no tempo.
A viagem aconteceu mesmo.
No sentido literal ou no figurado.
De qualquer forma, um dos maiores gênios da história da humanidade chegou em Araçatuba há seis dias.
Maltrapilho, começou a vagar pelo centro da cidade, abordando pedestres no calçadão. E foi Dayenne Cristina a primeira pessoa com que Nietzsche conversou.
(Nietzsche) - O que não mata nos fortalece. (Dayenne Cristina) - Ai, moço, tô até arrepiada! Essa é minha frase favorita! Olha aqui minha tattoo.
Dayenne baixou um pouco a saia para mostrar o cóccix tatuado, toda orgulhosa. "Tá um pouquinho diferente, o que não me mata me fortalece, mas é TOP igual!" Nietzsche nem ouviu. E continuou. "Torne-se quem você é". Dayenne estranhou. "Que?" Nietzsche seguiu a filosofar. "O medo é a mãe da moralidade".
Dayenne tratou de se mandar. "Ai, tá loco, o maluco deve tê fumado pedra."
Passando na frente da Casa Real, Nietzsche ouviu duas moças
Cantarolando. Enquanto caminhavam, Sandinéia e Arlinda cantavam bem alto. "Beijou a boca errada, lembrou da boca certa…" Nietzsche parou ao lado das duas. "Sem música, a vida seria um erro." Arlinda ficou incomodada. "Moço, ninguém perguntou". Sandinéia acrescentou. "Avoa daqui!" Nietzsche olhou para as duas. "Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar". A dupla saiu batendo as tamancas.
Avistando um mendigo sentado, Nietzsche foi até ele e se agachou. "Abençoados sejam os esquecidos, pois tiram maior proveito dos equívocos." O mendigo não demonstrou interesse,nem paciência. "Ah, vai tomá no c!" E deu um empurrão no filósofo, que caiu no chão. Sabrina, uma vendedora da Riachuelo, viu a cena e tratou de ajudar o Nietzsche a se levantar. (Sabrina) - Moço, cê tá bem? (Nietzsche) - Aquele que luta com demônios deve acautelar-se para não tornar-se um também. (Sabrina) - Ãh? (Nietzsche) - Quando se olha muito tempo para o abismo, o abismo olha para você. (Sabrina) - Ah, me erra! A vendedora saiu andando e Nietzsche também. O filósofo parou numa esquina onde um casal discutia. "A exigência de ser amado é a pior das pretensões." Beto e Raiene, incrédulos, se olharam. Nietzsche continuou. "Fiquei magoado, não por teres mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te." Raiene esbravejou. "Viu só, Carlos Roberto? Até ele sabe que você me chifrou! Filho da pta!"
Vendo sua amada indo embora, Beto levantou Nietzsche pelo pescoço. "Ae, malandro… Tá achando que pode fudê a parada dos otro?" Vendo que o filósofo não reagia, Beto o soltou. E resolveu desabafar. "Foi mal, véi. É que a Raiene me deixô só porque eu dei umas porrada no ex dela. Ciúme, tá ligado?" Nietzsche respondeu. "Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal." Beto começou a chorar e saiu andando. "Valeu, mano. Finalmente, alguém que me entende." Nietzsche completou. "Não é falta de amor, mas falta de amizade que faz casamentos infelizes." Beto nem escutou.
Faminto, Nietzsche entrou numa lanchonete, guiado pelo cheiro dos enrolados de presunto e queijo. Sentado num banquinho alto, um bêbado insistia em "contar verdades" para o dono do estabelecimento. (Bêbado) - O homem não pisou na lua po*a nenhuma. Truque de TV. (Nietzsche) - Não existem fatos, apenas interpretações. (Bêbado) - Cê tá duvidando de mim? Agenor, me vê outra branquinha. (Nietzsche) - O inimigo mais perigoso que alguém poderá encontrar será sempre ele mesmo. (Bêbado) - Tá me julgando por beber de dia? Vai se fud!
O bêbado ficou de pé, virou o corpo de Nietzsche em direção à saída e chutou a bunda dele.
Jurandira, Jussara e Jinéia, três senhoras que estavam voltando da igreja, viram a cena e correram ajudar o filósofo. (Jinéia) - O senhor tá bem? (Nietzsche) - Não ouse roubar a minha solidão se não fores capaz de me fazer real companhia. (Jinéia) - Mal-agradecido!
Jussara não gostou do que ouviu. "Ai, deixa esse homem aí. Crendeuspai." Nietzsche olhou para ela. "Siga a tua angústia, ela é o caminho rumo a ti mesmo." Jussara puxou as amigas. "Vambora". Nietzsche ainda teve tempo de dizer: "A essência da felicidade é não ter medo." Jussara não se segurou. "Ah, toma seus tento!"
Já Jurandira, a mais brava das três, chutou o saco de Nietzsche, que respondeu. "É mais fácil lidar com uma má consciência do que com uma má reputação." Aquilo pegou Jurandira de jeito, pois ela havia acabado de rezar por duas horas, mas escondia das amigas que estava flertando com um vizinho casado. Preferiu se fazer de desentendida. "O ônibus tá passando." E saíram correndinhas.
Percebendo que aquele homem estava importunando as pessoas, um guarda municipal pegou Nietzsche pelo punho. "O senhor está sob efeito de alguma substância?" Nietzsche respondeu. "Ser mau é tão insensato e autodestrutivo quanto ser bom." O guarda não teve paciência. "Cê vai ver quem é mau aqui."
Sem documentos e respondendo tudo com fisolofias e pensamentos, Friedrich Nietzsche foi levado para um sanatório. Ironicamente, lá as pessoas estão o entendendo muito bem.
(Nietzsche) - Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura. (Paciente 1) - Exato! (Nietzsche) - Por vezes as pessoas não querem ouvir a verdade, pois não desejam que suas ilusões sejam destruídas. (Paciente 2) - Né? (Nietzsche) - É preciso ter caos dentro de si para conseguir dar à luz a uma estrela dançante. (Paciente 3) - Cem por cento eu!
Dayenne Cristina chegou em casa pensando naquele homem que surgiu do além repetindo sua frase preferida. "Foi um sinal". Empolgada, usou a citação para se descrever em todas as redes sociais. "Pronto! Feice, Insta, Whats. Mas é "o que não me mata me fortalece", não "o que não mata nos fortalece". Tenho certeza, já usava no Orkut." E largou o celular, dando um sorriso de deboche. "Impressionante como as pessoas usam frases de internet sem nem dar uma checada antes."
Celso Dossi é escritor, colunista e roteirista. Contato: celsodossi@gmail.com