Nesta quinta-feira (31), no Sesc Birigui, o Grupo Carmin se apresenta com a peça teatral "A Invenção do Nordeste". O espetáculo é uma obra de autoficção baseada no livro homônimo do historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr.
A peça trata da xenofobia contra os nordestinos, desconstruindo a imagem estereotipada. A trama se passa a partir de um diretor, que é contratado por uma grande produtora, com a missão de selecionar um ator que possa interpretar com maestria um personagem nordestino. Depois de vários testes e entrevistas, dois atores vão para a final e o diretor tem sete semanas para deixá-los prontos para o último teste. Durante essas semanas de preparação, os atores refletem sobre suas identidades, cultura, história pessoal e descobrem que ser e viver um personagem nordestino não é tarefa simples.
Dirigida por Quitéria Kelly, a peça tem a dramaturgia de Henrique Fontes e Pablo Capistrano, com Henrique Fontes, Mateus Cardoso e Robson Medeiros no elenco. A cenografia é assinada por Mathieu Duvignaud, com a dramaturgia audiovisual e iluminação de Pedro Fiuza e trilha original de Gabriel Souto e Tony Gregório.
Segundo o grupo, o nordestino é mostrado ao público da única forma possível: multiforme e diverso. "Não existe um só tipo de nordestino, assim como não existe um só sotaque, uma só comida típica, um só regionalismo. Em nossa peça, os nordestinos são questionados exatamente sobre isso, como se mostrar, como atender uma expectativa criada por décadas de reforços de imagens estereotipadas e simplistas. O nordestino, assim como o sudestino, não deve ser reduzido a uma caixa. Não se ouve inclusive falar em uma identidade sudestina, como se os cidadãos de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas e Espírito Santo fossem uma unidade geográfica, política, econômica e cultural. Se quatro estados tão diversos, com histórias e culturas diversas não consideram-se uma unidade identitária, porque então os nove estados nordestinos são vistos assim?", destaca.
Como a peça é sobre assuntos xenofóbicos, o grupo diz que é desafiador tratar de temas que surgem do preconceito, do afastamento, da noção de que os nordestinos são considerados cidadãos de segunda categoria, como afirma Durval Muniz de Albuquerque Jr. no livro que deu origem à peça. No espetáculo, o grupo também utiliza o humor, a ironia e o sarcasmo para dar leveza ao assunto, mostrando que as noções equivocadas podem ser desconstruídas e reconstruídas.
"Recorremos à história para desconstruir a imagem estereotipada do nordestino. A partir de documentos históricos mostramos como essa impressão que liga o nordestino a uma noção limitada de seca, miséria, fraqueza e êxodo rural vem de reducionismos e simplificações corroborados principalmente pelas artes e pela cultura. Os livros, as músicas, os filmes, peças e a produção intelectual de uma época são revisitados e repensados, apresentados de forma crítica e questionadora para que possamos redescobrir uma nova possibilidade de entender e perceber nossa nação e nossa identidade cultural tão rica e diversa."
INÍCIO
A ideia da peça veio da a atriz Quitéria Kelly do Grupo Carmin, após a série de reações xenófobas contra os nordestinos, durante as eleições presidenciais de 2014. Ela entrou em contato com o professor Albuquerque Jr, que escreveu o livro: “A Invenção do Nordeste e Outras Artes”. Quitéria então compartilhou com os demais integrantes do grupo, o seu desejo de criar uma peça que contribuísse para a desconstrução da imagem equivocada do Nordeste e do nordestino.
As pesquisas duraram ao todo três anos e o grupo passou esse período em sala de ensaio. "Felizmente tínhamos o livro "A Invenção Do Nordeste e Outras Artes", resultado da tese de doutorado do professor Durval Muniz de Albuquerque Jr. que nos guiou durante o processo. A tese da peça segue a de Durval, que inclusive encontrou-se conosco ao longo do processo para momentos de debates e esclarecimentos. E o restante do processo foi o modelo de criação já estabelecido pelo grupo a partir das bases do teatro documentário e da autoficção, gêneros que compõe a obra", explica Quitéria.