09 de julho de 2026
Entretenimento

Leninha em 'Sonho de uma noite de verão'

Por Redação |
| Tempo de leitura: 7 min

De shakespeariano, este conto só tem o título. Não é poético, muito menos romântico. Simplesmente, a pequena Lena, uma garotinha falante e sonhadora de seis anos de idade, teve um sonho maluco durante uma noite de verão. E que verão.

Aeroporto Internacional de Campo Grande, 22h. Termômetro: 32ºC. Sensação térmica: morri e fui pro inferno. A família de Lena já se acomodava no avião quando Jefin, seu avô, falou bem alto. "Carai, tô suando até o rego! Haja cueca!" Vendo que os comissários não estavam dando conta de ajeitar tanta bagagem, Jefin completou. "Faltou a Inezinha aqui. Só ela pra colocar ordem nesse pteiro." E gargalhou.

Já Lena estava preocupada. "Vovó, a gente tá indo pra ARAÇATUBA? Lá é mais quente que aqui, meu tererê gruda no cabelo! Tchau!" Vendo que a neta iria mesmo dar as costas e se mandar, Helô explicou. "Calma, guria! A gente vai é para o paraíso! Imagina um lugar cheio de praias transparentes e um monte de coisa legal pra fazer? Capaz de você nem dormir!"

Zé Pedro, o irmão mais velho, espírituoso e brincalhão, encheu o saco da irmã. "Que nada, mana! Lá vai ter é parente maluco, sereia que rouba cordãozinho e batata frita com catchup." Lena se apavorou, pois era alérgica a catchup. E ensaiou um choro. Helô, ariana que só ela, colocou ordem no galinheiro. "Ah, para de falar borracha, Zé Pedro! Deixa sua irmã dormir! Guri atentado!"

E acalentando os cachinhos da neta, Helô fez Lena cair em sono profundo. Foi aí que o sonho de uma noite de verão começou. Muito maluco, por sinal. Sem pé nem cabeça. Uma versão abrasileirada de "Alice no País das Maravilhas". O motivo? Nem eu sei. Excesso de calor? Potencial imaginativo de mentes infantis? Leninha ser do signo de peixes? Provavelmente, uma combinação de tudo isso.

Lena acordou num lugar onde o sol nascia antes do galo cantar. (O sonho de qualquer criança, pois sobra mais tempo para aproveitar o dia). Bem na frente da garotinha, uma piscina tão enorme e comprida que parecia desembocar no mar. Foi aí que o sonho de Leninha entrou no duzentos e vinte. E os personagens malucos começaram a aparecer. A Bruxa Cozinheira, uma senhora vestida de branco e com olhos vidrados, surgiu com uma espátula na mão, mexendo os braços enquanto repetia: "Tapioca? Quer tapioca, menininha? Vem comer tapioca! A vida é melhor com tapioca. Tapioca?" Apavorada e percebendo que estava sozinha, Lena saiu gritando por socorro. "MAMÃE!" Por estar olhando para trás, Lena acabou trombando com Juna, uma fada-madrinha da qual a protagonista não desgrudaria até o final do sonho. Mesmo porque Juna era o único ser fantástico que sabia como vencer os "Nove Perigos". Eram eles:

1º) A Sereia Ladrona. O irmão de Lena estava certo, a tal sereia realmente existia. E levou o cordãozinho amarrado em um dos tornozelos de Lena assim que a menina entrou no mar, levando-a aos prantos. Imediatamente, Juna mexeu sua varinha mágica e cinco cordõezinhos muito mais bonitos apareceram num bracinho de Lena, deixando-a feliz novamente.

2º) O Senhor Roncador. A enorme piscina era rodeada de tocas. De uma delas, vinha um barulho ensurdecedor. Curiosa, Lena abriu a porta da toca e se deparou com um senhor dormindo de boca aberta. Ruído estrondoso, parecia um serrote. "RÔÔÔ. RÔÔÔ". Para não quebrar o encanto e dizer que aquilo era apenas um ronco de alguém que exagerou na cachaça, Juna explicou que aquele era o "barulhão da sorte". E a tirou dali.

3º) O Casal Animado. Andando por uma estradinha de pedregulhos, Lena sentiu seus braços sendo puxados. De um lado, Naldo. Do outro, Ene. As falas deles eram sincronizadas. (Naldo) - Vamos pra praia! (Ene) - Olha o sol! (Naldo) - Quer andar de buggy? (Ene) - Já viu a piscina natural? (Naldo) - Bora pras dunas! Antes que Lena gritasse, Juna jogou um mapa de viagem bem longe, fazendo com que o casal corresse atrás dele e deixasse a menina em paz.

4º) O Copeiro Abobalhado. Vendo que a menina estava faminta, Juna puxou duas cadeirinhas. Já sentadas, receberam a visita de um rapaz que não dizia coisa com coisa. "Querem batata frita? São de qual toca? A Terra é plana ou redonda? Já volto." Muito tempo depois, o Copeiro apareceu com batatas fritas afundadas num mar de catchup. Fadas madrinhas sabem de tudo, até das alergias, e Juna novamente salvou a menina, dando algumas castanhas de caju para ela comer.

5º) O Bugueiro Falante. Juna levou Lena para conhecer as maravilhas daquele lugar paradisíaco. Só que o motorista do buggy voador não parava de falar, o que deixou Leninha aflita. "Rochas de cinquenta milhões de anos…", "Com emoção ou sem emoção?", "Vou contar a origem desse lugar…" Prática, Juna chutou o saco do Bugueiro e tirou Lena de lá.

6º) O Restaurante Horrendo. Naldo e Ene reapareceram, convidando Lena para almoçar num lugar estranho e apertado. Tudo fedia muito. Vendo que a menina precisava se alimentar, Juna deu uma cocada para ela. Sabia que as coisas que fediam eram uma arapuca, pois toda a família do Casal Animado estava doente nas tocas. Piriri. E livrou Lena daquilo.

7º) O Salão de Jogos Maluco. Um lugar cheio de mesas de pepolim e ping-pong onde quatro rapazes barulhentos (Ardo, Erme, tio Ando e o irmão de Lena, Zé Pedro) faziam bolinhas brancas voarem com muita força. Após levar uma bolada na testa ("Au!"), Juna conseguiu retirar a menina intacta dali. "Que gente louca, vai t** no c*! (Sim, até fadas madrinhas perdem a paciência).

8º) A Lagoa Marrom. Novamente puxada pelos braços, Lena foi levada (pela família maluca que havia se curado do piriri) para um lugar místico. De um lado, o mar mais lindo do mundo. Do outro, uma lagoa lamacenta e nojenta. Claro que eles a empurraram para a tal lagoa, pois é isso o que acontece nesse tipo de sonho. Juna tapou o nariz, deu um mergulho e resgatou a menina, saindo muito brava de lá. "Que nojo!"

9º) A Bruxa da Hora de Dormir. Sabendo que crianças lutam contra o sono, este tipo de bruxa fica tentando fazer com que elas adormeçam para depois assombrá-las. E apareceu mexendo um pêndulo na mão esquerda: "Durma, menina. Durma." Lena ficou desesperada. E se ela dormisse e acordasse em outro lugar? E o pior: sem Juna? Antes que os olhinhos de Lena se entregassem ao sono, a fada madrinha (também ariana) fez a bruxa engolir o pêndulo e, pela nona vez, salvou a vida da menina.

Lena simplesmente não aguentava mais. Por mais que tivesse se divertido com todas aqueles lugares, pessoas e situações surreais, queria sua família de volta. Já Juna, exausta, caiu no chão, deixou o seu recado de fada ("Eu te livrei dos perigos, mas só a sua imaginação pode te tirar desse lugar") e desmaiou. "Ploft".

Lena fechou os olhos, tapou os ouvidos com os dedos indicadores e começou a falar sozinha, para não ver nem ouvir mais ninguém. "Uma amiga minha, a Valentina, me contou que pra gente acordar de um sonho e encontrar nossa família, é a gente tem que pensar nela e dar um grito." E deu o maior grito de sua vida. "AAAAAAAAAAAAAAAAHHH!"
Instantes depois, Leninha sentiu chachoalhões e ouviu pessoas chamando seu nome, o que a fez abrir os olhos.

Era a sua família.

Leninha estava no mesmo assento do avião (que, por sinal, ainda não havia decolado), cercada por muitas das pessoas que mais amava: a avô Helo, o avô Jefin, a mamãe Ana, o papai Áudio, a priminha Ina, a titia Ara e até Ando e Zé Pedro, que haviam a aporrinhado durante o sonho.

Ninguém acreditou no sonho maluco de Lena, mas também ninguém soube explicar como aqueles cinco cordãozinhos haviam aparecido num dos bracinhos dela.

Existem coisas que adultos não conseguem entender.

O que não deixa de ser uma pena.

Celso Dossi é escritor, colunista e roteirista. Contato: celsodossi@gmail.com