09 de julho de 2026
Artigo

Tire a trava do seu olho

Por Redação |
| Tempo de leitura: 3 min

Mais uma do Natalino…
Conversávamos amenidades quando o assunto mudou para pré-julgamentos que fazemos dos outros. Às vezes olhamos para uma pessoa ou determinado fato e a nossa ótica, unilateral, passa a ser verdade incontestável.

Disse ao Natalino: "Você fez-me lembrar da história daquela mulher que ao levantar todos os dias, olhava pelo vidro da sua janela e dizia ao marido que a vizinha era uma "porca" - estendia suas roupas sujas no varal. Repetiu a crítica à pobre mulher inúmeras vezes, até o dia que o marido lavou o vidro da janela. Foi assim que ela descobriu - o vidro de sua janela estava sujo e não as roupas da vizinha".

Aí o Natalino emendou uma história real, vivida por ele.
Você sabe, viajo muito! Por essa razão almoço sempre fora de casa. Um dia num restaurante de classe e, no dia seguinte, lá fim do mundo, numa verdadeira espelunca, cuja comida só desce por conta da fome.

Descobri uma comidinha caseira deliciosa num estabelecimento à beira da estrada, com inúmeras opções, principalmente para quem gosta de verduras, legumes e refogados.

Certa feita ouvi barulhos até então despercebidos. Atrás do imóvel, pássaros pretos e canarinhos não paravam um minuto com seus trinados.

Imediatamente me locomovi para checar o que estava acontecendo. Fiquei revoltado - dezenas de gaiolas expostas ao sol com os bichinhos presos.
Pensei comigo: Essa a última vez que almoçarei neste local, a não ser que o proprietário permita que eu solte todas aquelas aves.

Sair dali sem dizer umas "verdades" àquele homem sem coração, que aprisionava pobres bichinhos? Ele devia saber o por quê não retornaria.

Senhor - disse-lhe. Gosto deste local - é aprazível, e sua comida muito saborosa. Sempre penso trazer minha família e meus amigos para conhecerem seu negócio, mas aqui nunca mais colocarei os meus pés. Indignado o proprietário quis saber as razões daquela queixa.

Expliquei que era por conta dos pobrezinhos inocentes, que sem terem jamais cometido um único delito, estavam condenados à prisão perpétua.
Sua resposta fez com que não só repensasse em voltar lá, mas modificou o modo de fazer pré-julgamentos dali em diante.

--- Sabe o que é amigo. Ele iniciou um relato comovido. --- Esses pássaros eram do meu pai, e não permitia que os soltássemos. Meu filho aprendeu a amar os animais pelo exemplo do avô. Acontece que há três anos esse meu filho sem que saibamos os motivos até agora, suicidou-se… A partir de sua morte pensávamos soltá-los, mas eles saem da gaiola, andam pelo chão e depois retornam. Acionamos a Polícia Ambiental para que fizesse a soltura na natureza, mas ao saberem da história do meu filho e da insistência dos pássaros pretos e canarinhos em permanecerem conosco, ficaram sem ter o que dizer. No fim, amigo, é uma forma de lembrar do meu filho todos os dias ao alimentar cada criaturinha dessa.

A partir desta revelação Natalino intensificou sua ida àquele estabelecimento, levando consigo sua família e o indicando a todos seus amigos.

MORAL DA HISTÓRIA: Se o ser humano se interessasse verdadeiramente pela história de seu semelhante, o mundo teria menos guerras…

Nalberto Vedovotto é jornalista e bacharel em direito