Estava na frente da gôndola do supermercado a escolher um vinho. Escuto a seguinte frase, vinda do corredor oposto:
"Você viu o que o homem falou? Se tiver algo errado que paguemos.
Não sou de ficar bisbilhotando, mas como o assunto referia-se à figura do comandante mor da pátria, pensei comigo, que tal ligar um pouco mais as antenas.
A outra pessoa indagou: "Qual o motivo que o levou a dizer isso". O COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) detectou uma série de depósitos suspeitos na conta do motorista do filho do Bolsonaro, o tal de Flávio, deputado estadual do Rio de Janeiro.
Explica melhor esse negócio aí, estou completamente por fora. O motorista do Flávio Bolsonaro recebeu depósitos vultosos na conta dele, que no final de um ano civil chegou a mais de um milhão de reais!
Nossa, esse motorista deve ser muito bom de "roda", fazendo as contas rapidamente ele ganhava mais de cem mil reais por mês.
Aí que está a questão meu amigo. Não existe no Brasil e em lugar algum do mundo uma pessoa que receba um salário desta envergadura para pilotar um veículo, nem mesmo os que viajaram pela Nasa em direção à lua.
Tá bom, só foi o filho do "homem" pego com a boca na botija?
Que nada, só na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) mais de 25 deputados tiveram a mesma conduta, segundo do Coaf.
E todos disseram a mesma coisa que o presidente Bolsonaro - se cometeram erro vão pagar?
Negativo, até agora só mesmo nosso presidente.
O diálogo entre os dois desconhecidos (não tive coragem de ir ao outro lado para ver quem era) prosseguia leve, livre e solto. Acho tratar-se de dois aposentados, sem as mulheres por perto, é óbvio.
Mas você não tem noção do que pode ter ocorrido - esses depósitos entrarem na conta do motorista? Só ouviu o presidente dizer que vai pagar e mais nada? Ninguém chegou à fonte? Onde anda a Polícia Federal?
Pois é amigo. O tal do Flávio, filho do presidente, a cada momento tenta dar uma justificativa e joga tudo nas costas do coitado do motorista. Não há aquela lenda que o erro é sempre do mordomo?
O interlocutor que recebera a tal notícia parecia um sujeito mais politizado e tentou dar seu palpite a respeito.
Aí tem! Duvido que toda essa grana foi parar no bolso desse profissional do volante. Alguém está levando vantagem. O destino de todo esse dinheiro pode ser para financiar futuras campanhas políticas, você não concorda?
Meu filho, não me comprometa. Eu apenas te disse que o Bolsonaro afirmou: se houver erro eles pagarão…
Você, meu caro leitor, no mínimo deve estar querendo saber o final desse papo, ou minha opinião acerca do que indelicadamente acabara de ouvir. Tudo bem, aí vai: Se esse tal de COAF resolver trabalhar de verdade, com isenção, o Brasil vai resolver todos os seus problemas de dívidas interna e externa, déficit público e Previdência Social. É só investigar as Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais do país inteiro.
Vai sobrar dinheiro até para o 13º salário do Bolsa Família. Com certeza!
Nalberto Vedovotto é jornalista e bacharel em direito