10 de julho de 2026
Entretenimento

Sirilene não dava mais conta do calor

Por Redação |
| Tempo de leitura: 9 min

Já anoitecia quando o quarteirão inteiro pôde ouvir o grito estridente de dona Ademara. "Aaaaaaahhh!" A sexagenária de cabelos longos e sobrecarregados de tonalizante preto azulado havia ficado horrorizada ao chegar em casa, abrir a porta da sala e se deparar com sua única filha numa pose inusitada. "Misericórdia, Sirilene! Cê num tem vergonha, não? Fecha essas perna! Eu tô veno é tudo!"

Antes que a jovem tímida e retraída de vinte anos pudesse se explicar, Ademara deu um chute tão forte no ventilador que, além de desconectá-lo da tomada, ainda o fez voar longe. Plau! E mesmo após destruir o aparelho, Ademara seguiu dando bronca. "Então é isso que ocê fica fazeno enquanto eu vô pra igreja? Ah, injuriada… Cê tá precisano de coro!"

Sirilene finalmente conseguiu falar. "Tá louca, mãe? Você quebrou o ventilador! O único que a gente tinha!" A reação da filha só piorou as coisas. "Quebrei. E devia tê quebrado na sua cara, sua lazarenta! Cê tá viveno no pecado, safada!" A filha explodiu. "Pecado? Pecado é viver no calor dessa cidade!" E então voltou a sua doçura habitual. "Minha pressão baixou, mãe.

Você sabe que sempre passo mal no verão. Até corri tomar um banho gelado para me sentir melhor, mas abri a água fria e ela saiu fervendo. Piorei ainda mais. Já com as vistas escurecendo, coloquei a roupa mais fresca que achei na frente e tava aqui me recompondo."

Dona Ademara não acreditou em uma única palavra. Como era muito rígida e conservadora, encontrar a filha deitada no chão com as pernas abertas na frente de um ventilador trajando apenas um vestidinho de algodão parecia cena de pesadelo. "Arreganhada, Sirilene! E sem calcinha! Crendeuspai… Eu vi tudo, Sirilene! Até o teu furicu mi deu oi!"

Sirilene não se conformava. "Mãe, eu tava sozinha. E com muito calor." Ademara nem considerava. "Cê tava era com calor nas estranha, isso sim! Imoral! Cê que num toma rumo que cê vai vê! Vô contá tudo pro seu pai."

Silirene nem ligou. Sabia que tinha um pai calmo e com bom senso. "Conta. Quem sabe ele não coloca um ar condicionado nessa casa"?

Ao notar sua visão ficando turva novamente, Sirilene correu para a cozinha e lambeu um punhado de sal. E foi o tempo de puxar uma cadeira para não cair desmaiada. Cinco segundos depois, sua mãe estava lá. "Eu vô te levá na Jandira, sua sem vergonha! Cê tá precisano cê benzê. Tá com o diabo nu corpo!" Sirilene não sabia se desmaiava, se mandava a mãe para algum lugar ou se juntava as forças que ainda restavam em seu corpo para dar uma resposta. E resolveu juntá-las. "Mãe, pelo amor de Deus, me deixa quieta! E, por favor, pede pro pai consertar o ventilador. Não se espante se morrer em poucos minutos."

Ademara correu ligar para o marido. Não por estar sentindo pena da filha, mas por acreditar que Sirilene iria queimar eternamente no fogo do inferno se morresse justo naquele momento, logo após "ter feito safadeza com o ventilador". E após o segundo toque, Ademara já estava impaciente. "Alô? Etelbaldo? Corre pra casa! A Sirilene precisa urgente do ventiladô e ele quebrô!"

O marido, que era técnico em manutenção e conserto de eletrodomésticos (e, portanto, perfeito para este tipo de serviço), jogou um balde de água fria na esposa. "Esquece, Ademara. Nem existe mais peça pra um Arno véio desse. E mesmo se tivesse, compensa comprá otro. Por cem conto, cê tira um novo." Dona Ademara ficou louca. "Ah, é? E eu tiro os cem conto de onde? Da bunda? Cê vai passá no comércio amanhã cedin e comprá um." Sereno como sempre, Etelbaldo rebateu. "Olha, comprá eu até compro, mas cêis vão tê que esperá semana que vem, quando o cheque do cliente cai."

Antes de encerrar a ligação na cara do marido, Dona Ademara largou um desaforo. "Cheque tem que esperá caí, né? Já seu pinto cai a toda hora.

Tchau." E correu avisar a filha. "Ventiladô, só semana que vem. E só vai usá quando eu tivé de butuca. Vô dá uns gelo pra ocê chupá."

Já com a pressão arterial normalizada, mas com medo de outra recaída, Sirilene deixou a mãe falando sozinha e correu para o Praça Nova. "Ar condicionado de shopping é salvação de pobre. Que vida desgraçada a minha!"

Tomada por uma sensação de desamparo, Silirene aproveitou a ida ao shopping center para desabafar nas redes sociais. E foi numa página de araçatubenses no Facebook que ela dividiu sua tristeza. Explicando a situação "patética" pela qual ela havia passado, Sirilene fez um post enorme, abrindo o coração e contando tudo em detalhes: a tontura, o desespero no banho, a ideia do ventilador entre as pernas e o surto exagerado e totalmente equivocado de sua mãe.

Diversas pessoas foram deixando comentários no post de Sirilene. Além de afirmarem que ela estava com a razão e de deixarem dicas de como driblar o calor intenso da cidade, ainda disseram fazer exatamente a mesma coisa. "Eu deito no sofá, taco as pernas pra cima e deixo meu ventilador fazer o serviço", afirmou Tânia. Já Denilson mediu menos as palavras. "Ah, comigo não tem conversa. Gela tanto que viram bolas de sorvete. heuheuheue" Ao se dar conta de que ela não havia feito nada de errado e de que muita gente também "se arreganhava pro ventilador", a jovem voltou para casa tranquila.

Checando seu post na manhã seguinte, Sirilene ficou muito surpresa: dezenas de araçatubenses estavam a agradecendo por causa da dica de colocar um ventilador no meio das pernas. Mulheres e homens de todas as idades. Muitos deles chegaram a adicionar fotos aos comentários. E todos, sem exceção, estampavam no rosto uma deliciosa expressão de prazer. Um prazer nada sexual, de puro alívio e bem-estar.

Um participante da página chegou a criar uma imagem (bem tosca, com auxílio de Photoshop) em que ele aparecia nas nuvens. Na parte inferior da imagem, um recado: "Valeu, Sirilene! Você mudou minha vida!" Já outro criou uma camiseta virtual com a frase "Todo cidadão de Araçatuba deveria ter o direito de viver com um ventilador no meio das pernas."

Feliz por ter ajudado tanta gente, Sirilene mostrou o post completo para Dona Ademara. As respostas, os agradecimentos, as colagens, as fotos. Crente de que (finalmente) iria deixar sua mãe feliz, tudo o que a jovem conseguiu foi um tapão no ouvido. Plaft! Zonza, só conseguiu entender as palavras de Dona Ademara porque elas saíram gritadas. "Óia esse tantu de genti arreganhada, Sirilene! Deusmilivriguardi! E tudo por culpa sua, sua imunda! Ah, cê vai na Jandira cumigo é já! " Agarrando a franja da jovem, Ademara levou a filha até a benzedeira literalmente pelos cabelos.

Jandira era a única pessoa no mundo em quem Dona Ademara confiava. E também a única que ela obedecia e tratava com respeito. Criadas no mesmo bairro e comadres há muito tempo, nutriam uma amizade longa e verdadeira. E o grande prazer da vida de Ademara era assistir as bênçãos que Jandira dava. Gratuitamente e há mais de quarenta anos. Ademara adorava enaltecer a amiga para também se sentir especial: "Já curô até lepra. Cêis tem amiga com poder de cura? Então dá licença."

Logo que abriu o portão de casa, Jandira fez mãe e filha se sentarem. Enquanto passava um café, pediu para que Sirilene contasse todo o ocorrido. E a jovem contou. O excesso de calor, a queda de pressão, a água do banho, o uso do ventilador e a reação de Ademara.

A benzedeira deu uma gargalhada tão alta que fez até sua comadre dar risada, o que era algo raríssimo. Deixando mãe e filha totalmente relaxadas, Jandira disse para Ademara o que ninguém tinha coragem de dizer: "Ô, comadre, deixa de besteira. Ninguém aqui precisa ser benzida, não. Eu mesma, que o falecido não me ouça!, tranco a casa e ando pelada pela casa.

Não tem outro jeito. Nosso bairro pode se chamar Paraíso, mas o clima aqui é do inferno. E Sirilene é uma menina tão boa e comportada… Não veja maldade onde não tem."

Percebendo que a amiga estava convencida, mas não completamente, Jandira propôs. "Vamos fazer assim: quando o compadre comprar o novo ventilador, você traz aqui que eu benzo ele." Aquilo mudou completamente a cabeça de Ademara. "Glória a Deus, Jandira! Com todo esse seu poder, o vento vai sair soltando bênçãos!" E voltou para casa feliz da vida, chegando a tratar a filha com um certo carinho. "Disculpa puxá sua franja, mais num é que ela fica mais bunita puxadinha?"

Quando Etelvaldo chegou do trabalho, Ademara tinha uma confissão a fazer. "Óia, omi, eu guardava os trocado das compra tudo aqui no sutiã pra algum dia de emergência. E esse dia chegô." Tirando um maço de notas enroladas de dentro do enorme sutiã bege, Ademara pediu ao marido: "Vai comprá um ventiladô novo pra nóis, vai. O mais muderno. Usa todo o dinhero, pode caprichá." Etelvaldo estranhou aquela delicadeza toda, mas colocou um boné na cabeça e saiu. Ademara repetiu pra si mesma. "Com ordem de benzedeira não se brinca."

Em exatos vinte e oito minutos, um ventilador cheio de recursos e velocidades já estava na casa da família. Até controle remoto tinha.
Dona Ademara nem deixou que o produto fosse desembrulhado, levando-o imediatamente até a casa de Jandira. Após presenciar sua ídola benzendo o eletrodoméstico, a mãe de Sirilene nunca mais implicou com o uso de ventiladores. Pelo contrário, incentivava a filha a ligar aquele "Ultra Wind Control", já que, na cabeça dela, os ventos que dali saíam eram abençoados. "Vô na missa, viu, fia? Pode ligá seu ventiladô tranquila aí. E veste o que quisé, deita como quisé, só tranca bem as porta. Té mais."

Ver maldade onde não tem é uma das grandes ironias da vida. Dependendo do grau de insistência, algo que não passava de fantasia de uma mente perturbada pode se tornar realidade. E foi o que aconteceu.

A partir daquele dia, Sirilene começou a enxergar ventiladores com outros olhos. Se antes não havia malícia alguma por parte da jovem, as maluquices de sua mãe acabaram tornando as coisas bem diferentes.

Bastava Dona Ademara deixar a filha sozinha para que ela começasse a ter pensamentos libidinosos com o ventilador recém-comprado.

Aquele eletrodoméstico pecaminosamente refrescante levava a imaginação de Sirilene às alturas. Ainda mais quando o vento potente fazia seu vestidinho voar, como se quisesse a transformar na Marylin Monroe de Araçatuba, fazendo o pecado realmente morar ao lado.

Deitada no chão na posição que mais gostava, fazendo caras e bocas e passando o controle remoto pelo corpo, em poucos minutos Sirilene alcançava o prazer. "Ai, que delícia! Não para, não, função turbo! Nossa, que desempenho… Vai, vai… Assim, assim… Me mata de prazer, velocidade seeeeeeeeeeeeeis!"

Celso Dossi é escritor, colunista e roteirista.
Contato: celsodossi@gmail.com